Essa é uma carta aberta para uma vítima de violência que não poderá ler. Ela está morta. Enterrada. Levou um tiro vestindo a farda que tanto a enchia de orgulho.
Mas essa também é a carta de uma sobrevivente para quem não teve a mesma sorte.
Eu não conhecia você, Marlene. Mas conheço pessoas que amo e que te amavam. Subtenente da Polícia Militar, você abriu portas para muitas de nós dentro da Polícia Militar de MS.
Quando as notícias sobre sua morte começaram a pipocar nos grupos, a informação chegou até mim enquanto eu estava no Ministério Público, em uma avaliação sobre a violência que eu sofri. Ainda não se sabia se era “sui” ou “femi”, como costumamos dizer, às vezes, nos grupos de jornalismo.Eu disse a um amigo:
“Com toda dor do mundo, eu rezaria por qualquer coisa… menos por um feminicídio.”
Infelizmente, foi o que se confirmou.
Entrei na sala chorando. Porque era mais uma de nós tendo a vida interrompida. Eu nem sabia quem você era, não conhecia seu rosto nem sua história. Mas tínhamos algo em comum: éramos vítimas de violência.
Marlene, eu sou jornalista. Dizem que policiais nem gostam muito de nós. Mas, acima de tudo, eu sou mulher.
E foi aí que o medo começou.
O primeiro áudio que ouvi sobre sua morte foi de um colega seu dizendo que o seu feminicida havia confessado e já estava preso. Em seguida veio:
“Ele é um peba, tem ficha extensa, um monte de passagens.”
Foi o primeiro julgamento.
E, a partir daí, foi só ladeira abaixo.
Quando descobriram a ficha criminal do seu namorado — agora seu algoz — parece que o crime já não era mais suficiente.
Muitos passaram a dar ênfase justamente nisso. Manchetes que soam como um convite ao julgamento. Não do Gilberto, mas da sua “escolha”.
Vieram os comentários. Muitos. Sem empatia alguma. Questionando como uma policial militar, como você, poderia ter se envolvido com alguém “assim”.
Como se as pessoas não soubessem que o coração é terra que ninguém pisa.
Ou como se não entendessem que, às vezes, a gente não consegue sair — e isso pode custar caro.
“Como ela não puxou a ficha do cara?”
Esse foi um dos comentários que mais li.
“Ela era PM, tinha como saber.”
E o que mais dói: a maioria desses comentários vinha de mulheres.
Sim. De mulheres que, muitas vezes, sustentam relações aparentemente perfeitas — como se a gente não soubesse o quanto de violência é varrido para debaixo do tapete todos os dias.
Então, Marlene, mesmo sabendo que você não vai ler essa carta, eu escrevo.
Escrevo para os meus colegas, para os leitores, para os comentaristas que julgam.
E, se for preciso, até para a sua própria família.
A culpa não é sua.
Eu também fui vítima de violência. De alguém com a ficha criminal limpa. Intacta. Que, inclusive, se apresentava como vítima.
Sim, eu tive o cuidado de “puxar a capivara” antes de me envolver.
E sabe de uma coisa, Marlene? Eu me orgulhava disso. Ele também.
Ainda assim, ele quase me matou.
Cometeu várias formas de violência — muitas das que você, provavelmente, já atendeu na sua carreira.
A diferença entre nós duas é que eu sobrevivi.
Você, infelizmente, não.
Você morreu pelas mãos de alguém em quem confiava. De alguém de quem gostava. De alguém com quem dividia a vida.
E eu imagino que, assim como eu, você acreditava que ele podia ser melhor. Que podia mudar. Que podia se tornar alguém decente.
Mas isso nunca foi responsabilidade sua.
Então, Marlene, a culpa não é sua.
A culpa é de quem puxou o gatilho.
A culpa é somente do Gilberto.
Qualquer uma de nós está sujeita a isso.
Ainda mais mulheres fortes — que, muitas vezes, se tornam alvo preferido de homens covardes.
E a culpa pela violência contra a mulher… é sempre, e somente, de quem a comete.
Liziane Berrocal é jornalista, editora do site A Onça e sabe a dor de uma vítima de violência doméstica










