Especialistas explicam como expressões virais refletem a busca por pertencimento, afetam a atenção e podem indicar sinais de fadiga mental na era das telas
Se você já ouviu um adolescente dizer que “perdeu aura”, comentar um enigmático “six seven” ou reclamar de estar com “brainrot”, saiba que isso vai além de uma simples moda passageira. Esse vocabulário, cada vez mais presente nas redes sociais, ajuda a entender como a cultura digital se conecta diretamente ao funcionamento do cérebro e às relações sociais da nova geração.
Especialistas apontam que essas expressões funcionam como códigos de identificação. Mais do que palavras sem sentido aparente, elas ajudam jovens a se reconhecerem como parte de um grupo. Em uma fase marcada pela construção da identidade, compartilhar a mesma linguagem fortalece vínculos e gera sensação de pertencimento.
Do ponto de vista neurológico, isso não é por acaso. O cérebro humano é programado para buscar conexão social. Ao adotar uma gíria ou meme em alta, o jovem ativa mecanismos ligados à recompensa — especialmente a liberação de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. A novidade e a rapidez dessas expressões intensificam esse efeito, tornando-as ainda mais atraentes e fáceis de espalhar.
Além disso, o humor tem papel central nesse processo. Muitas vezes, memes e gírias substituem explicações mais longas, funcionando como atalhos emocionais. Compartilhar uma referência pode ser uma forma indireta de dizer “é assim que me sinto”. Por outro lado, esse mesmo mecanismo pode gerar exclusão, especialmente quando alguém não entende ou não acompanha os códigos do grupo.
Outro termo que ganhou destaque é “brainrot” — usado de forma irônica para descrever a sensação de cansaço após consumir conteúdos rápidos por longos períodos. Embora não represente uma condição médica literal, especialistas afirmam que ele traduz uma experiência real: a fadiga mental.
O consumo contínuo de vídeos curtos e fragmentados sobrecarrega o cérebro, especialmente a memória de trabalho. Esse padrão pode levar a uma espécie de “névoa mental”, com dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e menor retenção de informações.
Grande parte desse efeito está ligada ao formato das plataformas digitais. O hábito de rolar a tela sem parar cria um ciclo de estímulo e recompensa: cada novo vídeo ativa um mecanismo automático de atenção, mantendo o cérebro em estado constante de alerta. Com o tempo, isso pode reduzir a capacidade de foco em atividades mais longas, como leitura ou estudo.
Entre adolescentes, o impacto tende a ser maior. Nessa fase da vida, áreas do cérebro ligadas à emoção e à busca por validação já estão desenvolvidas, enquanto regiões responsáveis por controle de impulsos ainda estão em formação. Isso aumenta a vulnerabilidade ao uso excessivo das redes.
Os sinais de alerta variam, mas incluem irritação ao ficar sem o celular, dificuldade de concentração, problemas de sono, esquecimentos frequentes e desinteresse por atividades fora do ambiente digital. O uso das redes como única forma de lidar com emoções também merece atenção.
Apesar disso, especialistas destacam que o caminho não é proibir a tecnologia, mas aprender a usá-la de forma mais consciente. Criar momentos sem tela, especialmente antes de dormir, e estimular atividades que exigem foco prolongado são estratégias importantes. Também é fundamental que famílias mantenham diálogo aberto, buscando entender — e não apenas criticar — o universo digital dos jovens.
No fim, expressões como “aura”, “six seven” e “brainrot” mostram que a linguagem está em constante transformação. Ao mesmo tempo, revelam um desafio maior: equilibrar o uso da tecnologia para que ela continue sendo uma ferramenta de conexão, sem comprometer a saúde mental e a capacidade de atenção.






