Rede estadual reúne mais de 50 mil estudantes em cursos e programas voltados à qualificação e ao primeiro emprego
Conciliar os estudos com a primeira experiência profissional costuma ser um desafio para muitos jovens. Aos 17 anos, Rafaela Gomes Leite encontrou no Programa de Aprendizagem Profissional uma alternativa para começar a trabalhar sem precisar abandonar a rotina escolar.
Estudante da Escola Estadual Hércules Maymone, em Campo Grande, Rafaela queria conquistar o primeiro emprego, mas não pretendia trocar as aulas pelo período noturno. Por meio do programa, ela passou a atuar como menor aprendiz em uma empresa do setor de sorvetes e conseguiu manter as duas atividades.
“Sempre gostei muito de estudar, tirar notas boas e trabalhar era uma vontade, de forma que não atrapalhasse meus estudos. Com o projeto do PAP, tive a oportunidade de ter um emprego sem interferir no horário escolar”, conta.
A experiência também trouxe mudanças para a rotina da família. Segundo a mãe, Giliane, a filha passou a ter contato com responsabilidades que vão além do ambiente escolar, como administrar o próprio dinheiro.
A situação vivida por Rafaela representa um dos principais desafios enfrentados por adolescentes que buscam a primeira oportunidade: entrar no mercado de trabalho sem abrir mão da formação. Em Mato Grosso do Sul, a educação profissional tem sido utilizada como uma das estratégias para aproximar os estudantes das demandas do mercado.
A Rede Estadual de Ensino reúne atualmente mais de 50 mil estudantes em cursos, itinerários e outras modalidades de formação profissional. A proposta é oferecer qualificação ainda durante a educação básica, permitindo que o jovem conclua o ensino médio com conhecimentos que possam facilitar o ingresso no mercado de trabalho.
Entre as áreas de formação estão administração, logística, informática, ciência de dados, mecatrônica, agronegócio e recursos humanos.
No Programa de Aprendizagem Profissional, essa preparação também envolve a experiência dentro das empresas. O público é formado por estudantes de 14 a 24 anos matriculados no ensino médio com formação técnica e profissional. Para pessoas com deficiência, não há limite máximo de idade.
A formação prevê 1.200 horas, sendo 400 destinadas ao conteúdo teórico e 800 à prática profissional. O contrato pode durar até dois anos e inclui direitos como carteira assinada, remuneração proporcional, FGTS, vale-transporte e 13º salário.
Em 2025, o programa reunia 323 jovens aprendizes em Campo Grande, Três Lagoas e Chapadão do Sul. Naquele ano, dez estudantes de uma escola estadual de Três Lagoas foram contratados por empresas e instituições parceiras, incluindo alunos das áreas de administração e ciência de dados e um estudante surdo.
Além da aprendizagem prática, a definição dos cursos oferecidos pela rede estadual busca considerar as características econômicas de cada região. A Secretaria de Estado de Educação afirma que consulta municípios, empresas, sindicatos, associações comerciais e comunidades escolares para identificar quais profissionais são mais procurados localmente.
Também são utilizados dados do mercado formal de trabalho, como informações da Relação Anual de Informações Sociais e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. A intenção é direcionar a formação para áreas que apresentem demanda por mão de obra.
As parcerias com empresas também seguem regras definidas pela Secretaria de Educação. As atividades continuam vinculadas às escolas estaduais, enquanto as instituições parceiras podem contribuir com equipamentos, materiais, profissionais e espaços necessários para as aulas práticas.
O movimento ocorre em um cenário de expansão do mercado de trabalho no Estado. Mato Grosso do Sul terminou 2025 com saldo de 19.756 empregos formais. Entre os trabalhadores de 18 a 24 anos, foram 14.174 novas vagas no período. Já entre pessoas com ensino médio completo, o saldo chegou a 15.121 postos.
Em fevereiro de 2026, foram registrados mais 6.157 empregos formais no Estado. Os jovens de 18 a 24 anos ocuparam 1.963 dessas vagas, enquanto os trabalhadores com ensino médio completo responderam por 3.088 postos.
Os números reforçam a importância de preparar os estudantes para oportunidades que surgem em setores como indústria, logística, serviços e agronegócio, que vêm ganhando espaço na economia sul-mato-grossense.
O desafio, porém, vai além de ampliar o número de matrículas. A expansão da educação profissional também depende da criação de novas oportunidades de aprendizagem, da participação de empresas e do acompanhamento dos resultados depois da formação, como a entrada dos jovens no mercado formal e a evolução da renda.
A expectativa da rede estadual é ampliar a oferta de cursos e levar a educação profissional também para novas escolas previstas em Campo Grande, Ribas do Rio Pardo e Ponta Porã.
Para Rafaela, essa preparação já começou. Enquanto continua estudando, ela também aprende a lidar com horários, responsabilidades, dinheiro e a rotina de uma empresa. Uma experiência que pode fazer diferença justamente no momento em que muitos jovens começam a buscar o primeiro emprego.






