Uma menina de apenas 9 anos morreu após suspeita de ter feito um desafio viral na internet, em Campo Grande, nesta quarta-feira (4). A suspeita é de que a criança tenha participado do chamado “desafio do desodorante”, prática perigosa que circula nas redes sociais e incentiva a inalação de aerossóis.
De acordo com o registro policial, o pai da menina saiu de casa com a esposa para levar o filho recém-nascido a uma consulta médica e deixou a filha sob os cuidados de uma tia. Quando retornou por volta das 14h20, perguntou pela criança e foi informado de que ela estaria dormindo.
Ao tentar acordá-la, no entanto, percebeu que ela não respondia. A menina estava deitada de bruços e havia um tubo de desodorante próximo ao corpo. Segundo o relato, a criança apresentava os lábios arroxeados e não reagia.
Desesperado, o pai tentou reanimá-la com respiração boca a boca e massagem cardíaca. Durante a tentativa de socorro, a menina chegou a vomitar, mas não voltou a respirar.
A criança foi levada às pressas por familiares à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Universitário, onde equipes médicas também tentaram reanimá-la, sem sucesso. O óbito foi constatado por volta das 15h.
O caso foi registrado como morte decorrente de fato atípico e exames necroscópicos devem apontar a causa da morte.
Desafios virais preocupam especialistas
A suspeita de participação no chamado desafio do desodorante reacende o alerta de especialistas sobre os chamados “desafios virais” da internet, conteúdos que se espalham rapidamente nas redes sociais e incentivam crianças e adolescentes a realizar ações perigosas em busca de curtidas, visualizações e popularidade online.
Entre os exemplos mais conhecidos estão desafios como o do desodorante, do Superman, do desmaio e o chamado desafio da tarja preta. Muitos desses conteúdos circulam por meio de links que levam adolescentes a grupos privados nas redes sociais.
Nesses ambientes, os participantes recebem propostas de “brincadeiras” que envolvem comportamentos extremos, como ingestão de grandes quantidades de medicamentos, inalação de aerossóis, práticas de sufocamento e até automutilação.
Estudos também indicam que hashtags usadas para divulgar esses conteúdos frequentemente combinam o nome do desafio com termos ligados à saúde mental, estratégia que amplia o alcance entre adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional.
Um exemplo recente é o chamado “Desafio do Paracetamol”, que ganhou repercussão internacional após a internação de várias crianças entre 11 e 14 anos com intoxicação no Hospital Materno-Infantil de Málaga, na Espanha, caso destacado pelo jornal espanhol El País.
Mortes já foram registradas no Brasil
Levantamento do Instituto DimiCuida aponta que, entre 2014 e 2025, ao menos 61 crianças e adolescentes com idades entre 7 e 18 anos morreram no Brasil após participarem de desafios compartilhados nas redes sociais.
Os dados são compilados a partir de casos divulgados na imprensa ou relatados por famílias que procuram organizações da sociedade civil dedicadas à proteção de crianças e adolescentes. O Ministério da Saúde não possui estatísticas oficiais específicas sobre mortes ou internações relacionadas diretamente a esse tipo de prática.
Especialistas alertam ainda que muitos desafios continuam circulando nas redes mesmo após denúncias e remoções, muitas vezes adaptados em novas versões. Em alguns casos, práticas como o desafio do desodorante evoluem para variações que envolvem queimaduras na pele com aerossol ou pressão excessiva em sprays até que explodam.
Sinais de alerta
Alguns comportamentos podem indicar que crianças ou adolescentes estejam envolvidos em desafios perigosos na internet, como isolamento repentino, irritabilidade frequente, dores de cabeça intensas e uso constante de roupas que cubram todo o corpo, possivelmente para esconder manchas ou marcas.
Embora esses sinais não confirmem necessariamente a participação em desafios, especialistas afirmam que eles devem servir como alerta para pais, familiares e educadores.
O crescimento desse tipo de conteúdo ocorre em um cenário de acesso cada vez mais precoce à internet. Estudo do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância aponta que 44% das crianças de até dois anos já estão online no Brasil.
Já a pesquisa TIC Kids Online Brasil indica que cerca de 24,5 milhões de pessoas entre 9 e 17 anos utilizam internet no país, o que representa 93% dessa faixa etária.
Diante desse cenário, especialistas defendem que adolescentes com menos de 14 anos não tenham acesso irrestrito a celulares e que o uso das redes sociais seja supervisionado por pais ou responsáveis, com acordos claros sobre tempo de uso e tipo de conteúdo consumido.






