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Domínio da matemática é instrumento de poder, diz presidente do Impa

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6:48 quarta-feira, 15 outubro 2025
in Brasil
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O conhecimento em matemática pode definir quem exerce poder na sociedade atual, avalia o matemático e diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Marcelo Viana. Ele explica que, no contexto da inteligência artificial e dos algoritmos cada vez mais presentes em situações cotidianas, a democratização do ensino de matemática é uma questão de justiça e cidadania.

“Antes, ela já estava em tudo, agora ela está também no modo como as nossas vidas são guiadas. Se você submete um pedido de crédito, a decisão provavelmente vai ser tomada por uma inteligência artificial, que é baseada em matemática. Se você não tem o conhecimento [em matemática], você está à mercê de quem utiliza esse conhecimento”, destaca Viana, em entrevista à Agência Brasil.

Notícias relacionadas:Governo institui o Compromisso Nacional Toda Matemática.Educação deve ser direito e não herança de classe, diz especialista.Olimpíada de Matemática premia quase 8.500 estudantes de todo o país.Uma das principais vozes da divulgação científica no país, Viana lançou o livro A Descoberta dos Números, na semana passada. O matemático conta que sempre gostou de falar sobre essa área do conhecimento e de promover sua popularização como forma de incentivo aos jovens, além de compartilhar o gosto que tem pelo assunto. “Não é só para produzir mais matemáticos, é para todo mundo gostar da matemática”, diz.

Confira os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil: Qual é a importância da democratização e da popularização do ensino de matemática, não só para o aluno, mas para a sociedade?
Marcelo Viana: Em primeiro lugar, é uma questão de justiça, uma questão de cidadania. É um dos direitos fundamentais dos cidadãos o acesso à educação, em particular, a alfabetização. É um princípio pacífico em todas as sociedades modernas que todos nós temos direito a sermos alfabetizados, isso é uma condição necessária para exercer a cidadania. Não sou o primeiro a dizer, mas sou um defensor do princípio de que o acesso ao conhecimento matemático, digamos, a alfabetização matemática é igualmente um direito fundamental do cidadão.

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Depois, nos nossos dias, século 21, a matemática está entrando na vida de cada um de nós de novos jeitos, e muito mais invasivos do que antes. Antes, ela já estava em tudo, agora ela está também no modo como as nossas vidas são guiadas. Se você submete um pedido de crédito, a decisão provavelmente vai ser tomada por uma inteligência artificial, que é baseada em matemática. Se você não tem esse conhecimento, você está à mercê de quem utiliza o conhecimento [em matemática], que necessariamente vai ser em benefício próprio.

Agência Brasil: O senhor poderia exemplificar?
Viana: Tem um documentário que eu recomendo a todo mundo, em inglês, o título é Counted Out – em português, a tradução seria Excluídos pela Matemática –, que apresenta a seguinte mensagem: nos dias de hoje, matemática é poder. Quem tem esse conhecimento exerce o poder. Quem não tem está sujeito a ser explorado, a ser manipulado por quem detém o poder do conhecimento matemático. O filme traz um exemplo contundente de um prisioneiro americano cujo pedido de prisão condicional foi negado pelas autoridades com base na decisão de um algoritmo e inteligência artificial.

E contra algoritmo não tem argumento. O que ele fez, uma história impressionante, foi que ele se informou, buscou dados, buscou informação inclusive com outros prisioneiros a quem tinha sido concedida a liberdade condicional e outros a quem tinha sido negada. Ele entendeu como o algoritmo funcionava, mostrou que o funcionamento estava errado, que o funcionamento tinha viés e tinha preconceito. Ele conseguiu, por meio desse conhecimento, que as autoridades americanas parassem de usar esse algoritmo porque ele tinha um viés. O conhecimento matemático já não é mais aquela coisa ingênua de ‘eu preciso de matemática para fazer contas’.

Logo as decisões judiciais vão estar amparadas em inteligência artificial também. Tem um monte de decisões que impactam na vida de cada um de nós que passam por esse conhecimento. Finalmente, não menos importante, nós sabemos de fonte segura que a matemática é um um gerador de riqueza.

Agência Brasil: Nesse contexto da geração de riqueza, qual é a situação do Brasil?
Viana: Um estudo que a Fundação Itaú publicou em fevereiro de 2024 avaliou que atualmente as profissões que usam matemática geram 4,6% do Produto Interno Bruto [PIB] do Brasil, ou seja, uns R$ 450 bilhões que são produzidos por profissões que usam matemática. Só que esse percentual em países avançados fica entre 15% e 18%. Nós não estamos explorando tanto quanto seria possível esse filão, esse potencial que a matemática tem para gerar riqueza. Se nós conseguirmos passar dos nossos 4,6% para os 18% da França – 18% do PIB francês é produzido pela matemática – nós somaremos ao PIB do Brasil mais de R$ 1 trilhão por ano. Isso não é pouca coisa.

Para isso, a primeira coisa que tem que acontecer é ter mais jovens com um bom relacionamento com a matemática, mais jovens que sejam capazes de usar a matemática para resolver problemas e mudar o mundo. As oportunidades são por toda parte: no agronegócio, no mercado financeiro, na saúde, no setor de energia, absolutamente qualquer setor da atividade econômica, hoje em dia, tem potencial para incorporar matemática e melhorar muito a sua eficiência. Todas essas razões tornam a matemática fundamental – cidadania, empoderamento, desenvolvimento.

 

Professor Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) – Foto: Fernando Frazão/Arquivo/Agência Brasil

Agência Brasil: O Anuário Brasileiro da Educação Básica, que saiu no mês passado, mostrou que a maioria dos jovens não saem do ensino médio com aprendizagem adequada em língua portuguesa e matemática. O levantamento mostrou também que os piores resultados estão na parcela dos 20% mais pobres e daqueles que frequentam escolas públicas. Quais são os desafios no país diante dessa realidade?
Viana: O Brasil é um país extremamente injusto e desigual, nós estamos em um dos países com o maior índice de desigualdade e isso se reflete no que você está dizendo. A educação que a gente oferece às classes menos favorecidas é realmente de qualidade inferior. Isso é um problema de uma escala continental que o Brasil tem. Mas a gente não pode ter ilusões, porque mesmo as melhores escolas no Brasil não são competitivas em termos internacionais. Com raríssimas e honrosas exceções, as nossas escolas particulares também não se destacam no contexto de comparação internacional.

O principal elemento do processo educativo, que é o professor, não tem sido devidamente valorizado ao longo das décadas. Quando eu falo de valorização, as pessoas tendem a achar que estou falando de salário. Eu também estou falando de salário, mas salário não é o mais complicado de resolver. A meu ver, um problema tão grave quanto a defasagem salarial é o fato de as carreiras de professores no Brasil serem pouco ou nada interessantes em termos de progressão de carreira. O nosso professor, também com raríssimas e honrosas exceções, não tem incentivo a ter um desempenho diferenciado.

Nossa formação do professor é deficiente em muitos aspectos, tanto nas licenciaturas públicas quanto nas privadas, cada uma delas tem suas mazelas. Então, nós colocamos profissionais em salas de aula, muitas vezes, com sobrecarga horária e com formação inadequada para a tarefa do professor, que é uma das mais importantes que existe.

Agência Brasil: Como foi o processo de criação do seu novo livro, chamado A Descoberta dos Números?
Viana:  A Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], que é uma agência do Ministério da Educação, estava comemorando uma efeméride e convidou vários cientistas a fazer palestras de popularização da ciência na sua área da educação. No meu caso, pediram para escrever sobre o mistério dos números. Eu preparei a palestra e tive que pesquisar várias coisas que eu não tinha dado tanta atenção. Ao final, quando a palestra estava pronta, eu percebi, num clique, que se eu transcrevesse a palestra para texto viraria um pequeno livro. Um pequeno livro que contava coisas que eu mesmo não sabia antes de começar a escrever, então eu achava que trazia algum valor.

Eu me dediquei a fazer a transcrição da palestra para um formato de livro. No processo, eu descobri várias lacunas na apresentação, que teve uma hora. Eu fui percebendo que seria bom aproveitar o momento para contar casos, episódios que realçam o lado humano das coisas e também um pouquinho mais de matemática. No final, metade do livro veio da palestra e outra metade foi acrescentada depois, sobretudo para ilustrar e exemplificar.

A nossa descoberta dos números é uma das aventuras mais fascinantes da humanidade. É algo em que civilizações diferentes se engajaram porque precisavam, foi por razões muito práticas que nós começamos a contar, começamos a medir. É uma aventura da humanidade, é uma aventura que continua hoje. Está junto com as grandes invenções, como a roda e a descoberta da agricultura. É uma aventura matemática, em que a humanidade esteve envolvida durante milênios e vai continuar com certeza. O livro termina num tom assim: milênios depois os números ainda estão conosco e vão continuar conosco, provavelmente, para sempre.

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