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Calor desigual impulsiona monitoramento do clima em favelas do Rio

Calor desigual impulsiona monitoramento do clima em favelas do Rio

A Onça by A Onça
8:40 domingo, 29 março 2026
in Brasil
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O verão foi embora no mês de março, mas as altas temperaturas reforçaram a percepção de que é preciso monitorar o impacto desigual do calor em favelas do Rio de Janeiro.

O Observatório do Calor, instalado de forma pioneira no Complexo do Alemão, na zona norte, fez 710 aferições de temperatura entre setembro de 2025 e janeiro de 2026.

Notícias relacionadas:Rio registra cinco atendimentos por hora devido ao calor no carnaval.Governo lança Plano Clima com meta de reduzir emissões até 2035.Segurança, moradia, saúde são maiores demandas de moradores de favelas.O pico térmico no território, de 43,92 graus Celsius (ºC), foi registrado no Morro do Adeus em 26 de dezembro. No mesmo dia, a temperatura oficial máxima na cidade, medida pelo Sistema Alerta Rio, foi de 34ºC.

Diante das evidências dessa disparidade, a prefeitura anunciou a expansão do projeto para mais duas favelas: Manguinhos e Salgueiro.

A primeira, em uma área plana, fica próxima a uma das principais vias expressas da cidade, a Avenida Brasil. A segunda, nas franjas do Parque Nacional da Tijuca.

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Vista do bairro da Tijuca a partir do alto do Morro do Salgueiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Ilhas de calor

O observatório é um projeto da Prefeitura do Rio que mede as ilhas de calor e a qualidade do ar em favelas, com a intenção de propor melhorias. A falta de árvores, moradias adensadas, ruas estreitas e pouca ventilação são fatores que intensificam altas temperaturas nessas localidades.

“O Observatório nos permitirá entender melhor esses impactos de forma localizada”, explicou a secretária municipal do Ambiente e Clima, Tainá de Paula.

A força de trabalho que fará as medições de temperatura será contratada na própria comunidade. Os dados serão coletados três vezes ao dia, em diferentes pontos, assim que o projeto começar na prática.

Os registros serão analisados por especialistas e devem dar origem a intervenções ambientais e urbanísticas.

A expansão terá o apoio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Na segunda fase do projeto, os pesquisadores colherão depoimentos dos moradores sobre os efeitos do calor no dia a dia, explicou a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, Giselle Arteiro.

“Entendemos a importância de ouvir as pessoas que vivenciam o calor no seu cotidiano”, explicou a professora. “Uma das premissas do projeto é a consciência ambiental, em um contexto de justiça climática”, destacou.

 

Ruas estreitas deixam pouco espaço para o verde no Morro do Salgueiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Intervenções urbanísticas

Manguinhos é uma comunidade densamente povoada, com poucos espaços verdes, e que vem registrando, ano a ano, baixos níveis de qualidade do ar, o que pode estar ligado à proximidade de vias expressas. A favela já teve a maior horta urbana da América Latina, em um trecho de 1 quilômetro, que deixou de funcionar.

A reversão desses problemas deve exigir mudanças de comportamento na gestão do lixo, por exemplo, mas também intervenções urbanísticas. Em linhas gerais, a pesquisadora antecipou que as recomendações devem incluir plantio de árvores, criação de áreas de sombreamento e mais permeáveis à água, e de espaços livres para circulação de ar.

De acordo com a prefeitura, os dados do observatório vão mostrar quais locais são mais quentes e por quê.

“Com isso, poderemos planejar desde a criação de microcorredores verdes e o plantio de árvores em pontos estratégicos, até o melhor aproveitamento de áreas que hoje estão vazias e poderiam virar espaços de convivência mais frescos”, disse Tainá.

Soluções comunitárias

Já no Morro Salgueiro, comunidade aos pés da Floresta da Tijuca, a intenção é, além de medir o clima, exportar soluções de mobilização comunitária, explicou o presidente do Instituto Sal-Laje, o jornalista Emerson Menezes.

“Temos a particularidade de estar em uma zona de amortecimento do parque nacional, então temos áreas arborizadas, temos quintais produtivos, hortas, e a nossa percepção de calor, certamente, é diferente de uma favela mais urbana, menos arborizada”, avaliou Emerson.

 

Emerson Menezes, presidente do Instituto Sal-Laje. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Outros problemas comuns aos moradores de favelas continuam, ponderou ele, que citou a falta de acesso ao ar condicionado. “Não temos aparelhos de refrigeração como moradores do asfalto têm, e isso é uma questão no verão”, pontuou.

Emerson também integra o Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, que mantém uma horta no morro e apoia moradores com mudas para os seus quintais verdes.

“Muita gente aqui cria galinhas, porcos, plantam pequenos canteiros, árvores frutíferas”, disse. “Nossa comunidade valoriza muito as plantas”.

O Sal-Laje, projeto social de Emerson, oferece aulas de reforço para crianças e adolescentes e apoiará o novo observatório da prefeitura. Em Manguinhos, os técnicos serão do Coletivo Manguinhos Cria.

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