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Com miniaturas, artesãos dão novo sentido à Brasília dos monumentos

Com miniaturas, artesãos dão novo sentido à Brasília dos monumentos

A Onça by A Onça
6:40 terça-feira, 21 abril 2026
in Brasil
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Com óculos de proteção e máscara no rosto, o artesão Agnaldo Noleto, de 56 anos, escolhe cada material com cuidado. Ele acorda às 3h todos os dias para começar o trabalho, às 4h, na oficina em sua casa, na cidade de Santo Antônio do Descoberto (GO). Resina, madeira e tinta dão forma, em miniatura, a monumentos que estão a mais de 50 quilômetros de distância, na capital que aprendeu a amar.

Brasília, que completa 66 anos nesta terça-feira (21), cabe nas mãos do artesão e povoa a sua cabeça, enquanto cria, monta, lixa e pinta. 

Notícias relacionadas:Rádio Nacional tem programação especial para o aniversário de Brasília.Em Brasília, artesãos indígenas veem obras como ação de resistência .Brasil e Cabo Verde reforçam trabalho conjunto na Cultura.Agnaldo produz pelo menos 850 peças por semana para vender em feiras pela cidade. Os trabalhos viram lembrancinhas para os turistas e moradores. Mas cada mini-monumento ou pequeno palácio tem tamanho gigantesco em sua memória. A inspiração mais representativa para ele é a da Catedral de Brasília, tanto a que ele vê hoje como a que tinge seus dedos a cada madrugada. 

Foi vigiando carros no estacionamento da igreja que Agnaldo começou a ganhar seu primeiro dinheirinho, aos 14 anos de idade, logo depois que saiu de Riachão (MA). Ele se mudou com a irmã, em 1980, quando Brasília era apenas uma jovem de 20 anos. Os pais ficaram no Maranhão.

“Minha família sofria na roça. Eu ajudava eles, mas acho que eu sempre quis mesmo era ser artista”. 

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O artesão Agnaldo Noleto produz pequenas peças homenageando os monumentos de Brasília. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Vocação

Com as mãos de criança ou adolescente, fazia carrinhos de madeira e outros objetos com argila. Mas ainda demorou um pouco mais para ganhar a vida com as miniaturas. Guias de turismo incentivaram o jovem a fazer fotos instantâneas. A vida de artesão só se consolidou quando virou adulto e conheceu a pedra-sabão, material que foi proibido e substituído pela resina por conter amianto. Aprendeu a esculpir, juntar as peças e perguntar com sorriso: “uma lembrancinha hoje?”

“A lembrancinha é uma força em Brasília inteira. Eu sempre gostei do artesanato. Sempre gostei de cultura. O artesanato é a minha cultura”, exalta.

A primeira peça que ele produziu foi em homenagem à escultura Os Candangos, que tem oito metros de altura e está na Praça dos Três Poderes ─ uma criação de 1959 assinada pelo escultor Bruno Giorgi (1905-1993).

Nas mãos do artesão, a altura é de alguns centímetros, mas faz com que se lembre de si mesmo, da irmã e de outros nordestinos que arriscaram tudo para viver em uma cidade tão nova no centro do País. 

Outra criação que admira é a Catedral, que teve suas curvas concebidas pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012).

“Eles eram artistas. Eu só copio. Mas, mesmo assim, nada é fácil. Todas as peças são complicadas. A Catedral de Brasília é muito difícil. Qualquer pessoa pode fazer, mas nunca na perfeição que se exige”, acredita.

Agnaldo monta as peças uma por uma “até chegar ao padrão de vender”. Esse padrão foi o que garantiu a criação dos seis filhos, todos brasilienses.

A rotina do artesão é pesada. De segunda a sexta, embora inicie de manhã, chega a atravessar a noite trabalhando. Aos finais de semana, ele vai até a frente da Catedral e monta sua banquinha, das 8h às 18h “ou até a hora que tiver turista andando”. 

Movimento

Durante a semana, Agnaldo cede a banquinha em frente à Catedral para uma outra família de nordestinos que vende as miniaturas que ele criou.

A também maranhense Nariane Rocha, de 44 anos, fica responsável pelo comércio desde que a vida virou do avesso. O marido dela, Marcelino, morreu aos 64 anos de idade, no final do ano passado. Ele foi vítima de câncer.

“Foi muito triste voltar a trabalhar sem ele. Ficamos por 10 anos aqui. Chamei minha nora para me ajudar”. 

 

Nariane Rocha e Michele Lima, sogra e nora, trabalham juntas em sonham estudar psicologia. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A nora dela, a potiguar Michele Lima, de 42 anos, também se diz encantada por Brasília. “Aqui, eu me sinto segura. Penso em viver aqui sempre”.

Eles vivem na cidade do Novo Gama, a mais de 40 quilômetros de distância da Catedral. Além de ter uma perspectiva de abrir uma pequena loja, pensam em construir uma casa. 

Sogra e nora sonham abrir uma loja um dia, para não ficarem mais sujeitas ao clima. A cada chuva, é preciso ser ágil para cobrir as peças com um plástico. Além disso, precisam transportar para o carro todos os produtos a cada final de jornada.

Na relação de sonhos, está também voltar a estudar. A dupla quer cursar psicologia. “A gente é comerciante, mas adora conversar e entender as pessoas”, diz Michele.

Cidade-monumento

Outras barracas de artesãos são vizinhas no espaço informal da praça da catedral. O comerciante Alberto Correia, de 57 anos, nasceu em Paranã (TO), e hoje vive no Itapoã, uma região administrativa periférica também no Distrito Federal. Ele recorda que os primeiros momentos dele como artesão foram lapidando as peças no chão, de frente para a Catedral. 

Ao lado da banca dele, o goiano de Anápolis Rodrigo Gomes, de 41 anos, deixou a vida arriscada de mototaxista para reproduzir a arquitetura da capital. Gomes afirma que gosta de criar peças novas e reúne monumentos sob uma mesma base, o mapa do Brasil, obra que chama de “Mapa Candango”. 

 

Rodrigo Gomes, mostra seu Mapa Candango. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Ele garante que cada peça é toda feita à mão. “Tudo aqui tem jeito de arte. A gente tem que ser criativo para chamar atenção. A cidade é um monumento. A gente pede para olhar para as miniaturas”.

A soteropolitana Tânia Bispo, moradora do Gama, que vende miniaturas em banca vizinha à de Rodrigo, lembra, aos 58 anos, que começou a vida de comerciante vendendo água de coco. 

Hoje, quem cuida dessa atividade é o marido, do outro lado da praça. Ao longo do dia, fazem acenos. Foi com o trabalho nas bancas que ambos criaram os quatro filhos.

Nordestina há 30 anos na capital, ela se sente participante ativa da construção do lugar.

“Já fui diarista e infeliz. Hoje não me imagino em outro lugar. Sou encantada por essa cidade grande”.

 

Tânia Bispo, fala sobre artesanato de Brasília. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

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