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Cortejo de culturas tradicionais reúne três gerações da mesma família

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in Brasil
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Antes mesmo de nascer, Maju Santos, de 27 anos, já acompanhava o compasso dos tambores de congo capixaba dentro da barriga da mãe. Em Vila Velha, no litoral do Espírito Santo, ela cresceu cercada pela musicalidade e pela tradição, guiada pela mãe Beatriz dos Santos Rego, que é regente da Banda de Congo Mestre Honório, e pelo avô, o Mestre Daniel, que se orgulha de já ter feito à mão mais de 2 mil tambores.

“Como comecei na banda de congo? Na verdade, foi bem antes de eu nascer. Minha mãe conduzia as fincadas de mastro comigo na barriga. E eu acho que disso veio muito do meu dom, eu tenho um ouvido quase absoluto para isso”, contou Maju, que integra a banda Mestre Honório e o grupo de congo Madalenas do Jucu.

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“É uma festa que o conguista faz em homenagem a São Benedito e aos escravos que se salvaram de um naufrágio. Eles se salvaram agarrados ao mastro do navio, todos que se agarraram ali se salvaram”, explicou.

Segundo a tradição popular, a sobrevivência dos escravizados ao naufrágio se deu após pedidos a São Benedito.

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Marcada pela música das bandas de congo, o ritual inclui fincar um mastro enfeitado em praça pública. “Cada [banda] tem um dia para fincar o mastro que fica durante um mês ali e, no mês seguinte, a gente o retira. É como se fossem duas festas”, contou.

Os dois grupos dos quais Maju participa desfilaram em cortejo que percorreu ruas do município de Aracruz (ES), ao entardecer de sábado (23). A atividade é parte da 6ª edição da Teia Nacional dos Pontos de Cultura, que promoveu extensa programação cultural ao longo da semana.

O desfile reuniu outros grupos tradicionais da região, como os Guerreiros Tupinikim, da aldeia Irajá, um dos 12 territórios indígenas de Aracruz. O cortejo atraiu os moradores do bairro de Santa Cruz: alguns apareceram nas janelas, outros vieram para as calçadas, a fim de acompanhar a celebração.

Mulheres no congo

À frente dos instrumentistas, o estandarte das Madalenas deu destaque à participação das mulheres na manifestação popular. A regente Beatriz, que participava dos festejos grávida de Maju, é a responsável pela criação do grupo, formado por mulheres de diversas gerações. Com 58 anos, ela conta que começou nas bandas de congo há 40 anos.

Segundo Beatriz, o grupo Madalenas é fruto da resistência da Banda de Congo Mestre Honório, cujo mestre atual é seu pai.

“Era um sonho do nosso antigo mestre, desde a década de 1990, formar um grupo só de mulheres. Esse sonho permaneceu comigo e eu consegui formar esse grupo depois de 30 anos, nosso grupo de mulheres no congo”, contou, sobre a criação do grupo em 2021.

“A banda de congo sobrevive e resiste por tudo isso aqui, é essa cultura, é sair na rua, é mostrar o que a gente sabe fazer. Eu falo que a banda de congo é o ar que eu respiro”, afirmou. “Esse encontro é muito importante porque a gente vê o tanto que há de cultura no nosso estado e fora dele também, isso é muito rico. Às vezes as pessoas não têm noção do tamanho disso tudo”, acrescentou.

Beatriz destacou a importância das políticas para incentivar e manter as manifestações das culturas tradicionais e populares. “Durante todo esse tempo de resistência da banda, contamos com [recursos de] editais e ajuda que a gente pede. E, graças a Deus, fazemos a nossa festa [da Fincada do Mastro] todo ano”.

Herança de gerações

Hoje, a filha Maju, que domina todos os instrumentos da banda, é a regente das Madalenas.

“Eu sei tocar todos os instrumentos, comecei muito cedo. O meu preferido é a caixa, que conduz toda uma roda de Congo. Com quatro anos, já ajudava minha mãe a conduzir uma Fincada de Mastro. Eu, pequenininha, com umas baquetas gigantes assim, e tem foto disso, tem registro”, contou.

Imersa na cultura do congo por causa da influência familiar e regional, a jovem carrega a memória coletiva da banda e dá continuidade a essa manifestação tradicional. “Sempre tive um amor imenso pela cultura do congo. Isso vem muito de família, nossa família toda é composta por congueiros, desde gerações passadas. Antes mesmo do meu avô, tinha gente que já tocava congo, foi assim que criei amor por essa cultura”, relatou.

Aos 85 anos, Mestre Daniel Vieira dos Santos segue tocando tambor na Banda de Congo Mestre Honório. “Isso, pra mim, é um prazer muito grande. Estou aqui, meu coração está coberto de alegria”, disse o mestre sobre a participação no cortejo junto da filha e da neta.

Ele lembrou que são três gerações de uma família que cresceu em meio aos saberes e festejos dessa tradição e que atualmente percorrem as ruas, juntos, promovendo a cultura regional e disseminando a herança das bandas de congo.

“Com 12 anos, eu já batia congo lá em Tapuera [em Vila Velha]. Nós íamos de bicicleta, eu e mais uns quatro, brincar e bater tambor, e não parei mais. Quando chegou em 2000, me aposentei, o mestre tinha morrido e fui para o lugar dele”, disse.

Mestre Daniel recordou também que, na época, a banda só tinha cinco ou seis tambores. “E fui fazer tambor. Esses tambores aqui foram feitos por mim, eu que faço e sigo fazendo. Já fiz mais de 2.500 tambores”, afirmou, mostrando o tambor nas mãos.

A equipe viajou a convite do Ministério da Cultura.

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