Seis alvos da Operação Antidotum continuam presos; vice-presidente assume a linha de frente da instituição enquanto MPMS apura prejuízo superior a R$ 4,9 milhões
Um dia após a prisão preventiva da presidente e de integrantes das áreas administrativa e financeira, a Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande informou neste sábado (12) que o hospital continua funcionando regularmente e que o atendimento à população não sofrerá interrupções em razão da Operação Antidotum.
Em comunicado, a instituição informou que o Conselho de Administração reuniu-se extraordinariamente na tarde de sexta-feira (11) para definir as medidas necessárias à manutenção dos serviços de assistência à saúde.
O Conselho também manifestou solidariedade aos integrantes da diretoria atingidos pelas medidas cautelares e enalteceu “a dedicação, a integridade e os relevantes serviços prestados por eles” ao longo dos anos. A entidade afirmou que aguarda o esclarecimento dos fatos e reiterou confiança na Justiça.
Os seis investigados presos durante a operação passaram por audiência de custódia na manhã deste sábado. A Justiça manteve todas as prisões preventivas.
Com a prisão da presidente Alir Terra Lima, o vice-presidente Heitor Miguel Scheibeler passou à linha de frente da administração. Ele já aparecia oficialmente como vice-presidente no organograma atualizado pela Santa Casa em agosto deste ano.
A nota oficial postada nas redes sociais gerou revolta nos usuários do hospital. “Eles foram afastados pois foram presos. Solidariedade temos que ter com as pessoas que morr3ram, morr3m e morr3rão por condutas corruptas. Essa nota é uma falta de respeito com a população. Os funcionários (principalmente os assistenciais) da Santa Casa pedem socorro com essa má administração.
Quem são os seis presos?
Alir Terra Lima — advogada e presidente da Santa Casa. Eleita pela primeira vez em novembro de 2022, tornou-se a primeira mulher a comandar a instituição. Foi reconduzida ao cargo em 2025 e iniciou, em janeiro deste ano, o segundo mandato, referente ao triênio 2026–2028.
Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa — advogado e diretor de Finanças Adjunto da Diretoria Corporativa da Santa Casa.
Rinaldo Hakme Romano — diretor financeiro da estrutura executiva do hospital.
Alessandro Dias Junqueira — diretor administrativo da Santa Casa.
Monique Gregório de Oliveira — coordenadora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística (Same), setor responsável pela guarda e organização dos prontuários.
Maurício Aparecido Benites — empresário ligado à Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços e à Exbe Tecnologia e Serviços, empresas relacionadas à prestação de serviços de digitalização.
Alir e Paulo Guilherme foram encaminhados ao Presídio Militar de Campo Grande por serem advogados e terem direito a instalação compatível com a prerrogativa profissional.
Além dos seis presos, Beatriz Lemes da Silva, diretora executiva do Plano Santa Casa Saúde, e o advogado e empresário Paulo da Cruz Duarte foram alvos de mandados de busca e apreensão. Não havia ordem de prisão contra eles nas informações confirmadas até o momento.
CONTRATO DE R$ 5,4 MILHÕES
A Operação Antidotum foi deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por meio do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), com participação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
Foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Uma das frentes da investigação envolve um contrato firmado pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande para a digitalização de prontuários médicos.
O acordo previa o pagamento de R$ 1,8 milhão por ano, durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o MPMS, teriam sido realizados pagamentos elevados sem a correspondente prestação dos serviços. Somente no primeiro ano do contrato, o prejuízo apontado pela investigação chegou a R$ 1,4 milhão.
PREJUÍZO NA SANTA CASA SAÚDE
O Gecoc também investiga contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde, controlada pela associação, com empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico.
Conforme o Ministério Público, o proprietário dessas empresas mantinha ligações com integrantes da diretoria da Santa Casa. As companhias apareciam registradas no mesmo endereço, mas o imóvel indicado como sede estava desocupado.
Somente em 2025, a operadora teria pago aproximadamente R$ 9,6 milhões a essas empresas. O prejuízo calculado até agora é de, no mínimo, R$ 3,5 milhões.
Somadas as duas frentes da investigação, as perdas já identificadas ultrapassam R$ 4,9 milhões. O MPMS ressalta que o valor total ainda está sendo apurado.
A investigação aponta ainda que contratos, pagamentos e prestações de contas teriam sido sistematicamente ocultados dos órgãos de fiscalização, incluindo o Conselho Fiscal da própria Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado.
PROCESSO SOB SIGILO
O processo tramita sob sigilo. Por isso, ainda não foram divulgadas as condutas individualmente atribuídas a cada um dos seis presos nem todos os fundamentos utilizados pela Justiça para decretar as prisões preventivas.
A defesa de Monique Gregório informou que, durante a busca realizada em sua residência, foram apreendidos um caderno e um tablet e que nenhum objeto ilícito foi encontrado. Também afirmou que ela forneceu as senhas solicitadas e está disposta a colaborar com a investigação.
A defesa de Maurício Benites negou que serviços tenham sido executados ou cobrados ilegalmente e afirmou que apresentará os esclarecimentos no processo.
Já a defesa de Alir Terra contestou a necessidade da prisão preventiva e informou que buscará a revogação da medida, mencionando também problemas de saúde da presidente.
Não foram localizadas, até a publicação desta matéria, manifestações públicas individualizadas das defesas de Paulo Guilherme Mariosa, Rinaldo Romano e Alessandro Junqueira.
As prisões são cautelares e não representam condenação. Os investigados têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.
NOTA DA SANTA CASA NA ÍNTEGRA
“A Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande vem a público informar à sociedade, aos seus colaboradores e aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) que o seu Conselho de Administração da Instituição reuniu-se extraordinariamente na tarde de ontem (sexta-feira) para deliberar sobre as medidas necessárias à manutenção e continuidade integral de todos os serviços de assistência à saúde prestados pelo Hospital.
Diante dos acontecimentos recentes envolvendo a operação deflagrada pelo Ministério Público Estadual nesta sexta-feira, a instituição esclarece que continua operando regularmente, assegurando que o atendimento à população não sofrerá qualquer descontinuidade.
O Conselho de Administração manifesta sua solidariedade aos membros da Diretoria afetados pelas medidas cautelares, enaltecendo a dedicação, a integridade e os relevantes serviços prestados por eles ao longo de anos de trabalho em prol do fortalecimento da Santa Casa e do bem-estar de toda a comunidade.
A Associação aguarda o pleno esclarecimento dos fatos pelas autoridades competentes e reitera sua confiança na Justiça.
Campo Grande/MS, 12 de setembro de 2026.
Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande.”






