O constante aumento da temperatura da superfície do Oceano Atlântico tem modificado o regime de chuvas no Brasil, contribuindo para a ocorrência de eventos climáticos extremos como as fortes chuvas que atingiram o litoral paulista e regiões de Minas Gerais, nos últimos dias.
Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o aquecimento das águas do Atlântico fazem parte de uma tendência global, que afeta também a outros oceanos, e que contribui para elevar a taxa de evaporação, lançando grandes volumes de vapor de água na atmosfera.
Notícias relacionadas:Chega a 46 o número de mortos nas chuvas na Zona da Mata Mineira.Chuvas deixam 384 desabrigados em Peruíbe, no litoral paulista.Inmet emite alerta de grande perigo para chuvas intensas em Minas.“E aí temos um problema duplo. Porque, devido ao aquecimento global, a atmosfera também está mais quente, e acaba por transformar em chuvas extremas toda a umidade que os ventos, e principalmente as frentes frias, trazem do oceano ”, explica Seluchi.
O meteorologista disse que nos últimos dias a temperatura média das águas oceânicas em alguns pontos junto à costa brasileira está até 3°C acima da média histórica do período.
“Esse aumento é uma coisa de curto prazo, que pode ocorrer por diferentes fatores, como a força das correntes marítimas próximas à costa. O ponto crítico não é esse, mas sim o tamanho da área onde essa elevação da temperatura das águas acontece”, disse o meteorologista, explicando que, quanto mais extensa a mancha de calor oceânico, mais umidade será lançada na atmosfera.
“Quando temos massas de ar vindas do oceano, especialmente as frentes frias que percorrem muitos quilômetros, o aporte de umidade é muito maior. Consequentemente, em combinação com a atmosfera mais úmida, aumentam as chances de ocorrerem chuvas mais volumosas”, disse Seluchi.
Dados de monitoramento, incluindo registros de satélite da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa), apontam que a taxa de aquecimento dos oceanos acelerou nas últimas décadas.
Um estudo publicado na edição de janeiro da revista Advances in Atmospheric Sciences aponta que, em 2025, o aquecimento global dos oceanos atingiu um novo recorde devido ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera.
Doutora em meteorologia, a professora do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) Ilana Wainer reforça que “um milhão de fontes” sérias indicam que a temperatura do planeta e, consequentemente, dos oceanos, está esquentando desde 1850.
“E isso se acelerou principalmente a partir da década de 1980”, alerta Ilana, explicando que, com isso, podem surgir ondas de calor marinho localizadas e temporárias. O que, segundo ela, em conjunto com outros fatores, pode contribuir para a formação de eventos climáticos extremos.
“Mas as ondas de calor marinho [localizadas] ainda são um assunto relativamente novo. Ainda estamos entendendo como elas surgem, com que frequência e por quanto tempo duram. Ainda assim, é possível afirmar com segurança que, isoladamente, elas não causam as chuvas intensas, embora, dependendo das condições, possam torná-las mais severas”, disse Ilana.
Extremos
Ao mesmo tempo em que algumas regiões do Brasil enfrentam as consequências de chuvas torrenciais, outras se veem às voltas com a estiagem e o risco de faltar água.
Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, isso acontece devido à distribuição irregular das chuvas. O que, em parte, pode ser explicado pela degradação ambiental.
“Estamos vendo muitas chuvas em algumas regiões do Brasil, mas em termos gerais, está chovendo menos [do que habitualmente, em outras regiões]. Isso está acontecendo porque a umidade não vem só dos oceanos. Vem também da Amazônia, do interior do país, de regiões hoje desmatadas”, explica Seluchi, referindo-se ao fenômeno que especialistas batizaram de “rios voadores”, que são fluxos de vapor que têm origem na Floresta Amazônica e que são transportados pela atmosfera até outras regiões.
“Quando suprimos a vegetação nativa por áreas de pastagem, esse solo evapora menos. E disso decorre essa enorme irregularidade [na distribuição das chuvas]. Porque, dependendo da direção de onde os ventos estão soprando, podemos estar com uma fonte de umidade degradada, e aí se estabelece um círculo vicioso no qual chove pouco porque o solo está seco e o solo está seco porque chove pouco”, concluiu Seluchi.
