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Chantagem? Enquanto pacientes esperavam por cirurgias, investigação aponta milhões em contratos suspeitos e dinheiro circulando entre dirigentes da Santa Casa

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13:32 segunda-feira, 14 setembro 2026
in Polícia
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Presidente pressionava poder público com risco de desassistência e chegou a suspender procedimentos; nos bastidores, MP aponta pagamentos milionários, transferências pessoais e patrimônio sob investigação

Enquanto pacientes de Campo Grande e de todo Mato Grosso do Sul ouviam sucessivos alertas de que a Santa Casa poderia reduzir atendimentos por falta de dinheiro, a estrutura administrativa do maior hospital do Estado era alvo de uma realidade bem diferente nos bastidores.

De um lado, a direção da instituição falava publicamente em crise, déficit, falta de insumos e risco de desassistência. Cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais chegaram a ser suspensos. Não raro, a presidente da entidade, Alir Terra vinha a público “culpar o poder público” pela crise no hospital. Médicos ficavam meses sem receber e funcionários recebiam salários com atraso.

De outro, documentos da investigação que resultou na Operação Antidotum descrevem milhões de reais movimentados em contratos considerados suspeitos pelo Ministério Público, transferências financeiras entre pessoas ligadas à direção e aquisições patrimoniais que agora estão sob escrutínio dos investigadores.

A contradição ganha peso porque não se trata apenas de números contábeis. Na ponta dessa crise estavam pessoas esperando cirurgia, tratamento e atendimento médico.

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Em julho, a própria Santa Casa convocou entrevista coletiva para anunciar que o contrato com o poder público estaria desequilibrado e alertar para o risco de desassistência. A instituição afirmou que atendia acima do volume contratado e buscava pressionar Estado e Município por uma solução financeira.

Dois dias depois, em 29 de julho, foram suspensos atendimentos ambulatoriais e cirurgias eletivas. A justificativa apresentada pela direção clínica foi falta de medicamentos, insumos, materiais cirúrgicos e atraso no pagamento de médicos.

A paralisação atingiu especialidades sensíveis, incluindo cirurgia geral adulta e pediátrica, cirurgia cardíaca, vascular, urologia, ortopedia e cardiologia intervencionista. Urgência, emergência, oncologia, hematologia e transplante renal permaneceram funcionando.

Mesmo em agosto, cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais continuavam suspensos enquanto a instituição cobrava recursos adicionais.

No começo de setembro, pouco depois de procedimentos terem sido retomados, uma nova paralisação voltou a atingir pacientes. Houve relato de paciente que chegou a ser encaminhada ao centro cirúrgico e deixou o hospital horas depois sem realizar o procedimento.

Era esse o cenário apresentado à população.

Nos documentos agora analisados pelo Ministério Público, porém, aparece outro lado das finanças da instituição.

Mais de R$ 9,6 milhões para empresas de um mesmo empresário

Uma das principais frentes investigadas envolve a Operadora Santa Casa Saúde.

Segundo o Conselho Fiscal, reproduzido na representação do Ministério Público, empresas vinculadas ao advogado e empresário Paulo da Cruz Duarte receberam R$ 9.617.738,49 somente durante o ano de 2025. No mesmo exercício, a Santa Casa Saúde teria registrado resultado negativo de R$ 3.555.901,12.

A investigação sustenta que Paulo Duarte constituiu, controlou ou representou diferentes empresas que passaram a atuar em áreas diversas da operação do plano de saúde, incluindo assessoria jurídica, cobrança, emissão de boletos, comercialização de planos, administração de beneficiários, telemedicina, publicidade e outros serviços.

O MP afirma que essas atividades foram distribuídas entre vários CNPJs ligados ao mesmo núcleo empresarial.

Uma empresa recebeu R$ 5,57 milhões em dez meses

Entre os pagamentos que mais chamaram a atenção dos investigadores estão os feitos à Duarte Soluções Creditícias.

De acordo com a representação, entre março e dezembro de 2025 foram registrados dez pagamentos de R$ 557 mil por mês, somando R$ 5,57 milhões.

A rubrica era relacionada à execução técnica para abertura da filial da Santa Casa Saúde em Dourados.

Isso significa uma média superior a meio milhão de reais por mês para uma única empresa enquanto a instituição já enfrentava publicamente dificuldades financeiras.

MP diz que Alir recebeu mais de R$ 200 mil de Paulo Duarte

O ponto talvez mais sensível da investigação não envolve uma pessoa jurídica, mas uma transferência direta entre pessoas físicas.

Segundo o Ministério Público, uma análise preliminar de dados bancários apontou que a então presidente da Santa Casa, recebeu mais de R$ 200 mil diretamente de Paulo da Cruz Duarte.

O próprio MP classifica o achado como um fluxo financeiro pessoal entre a dirigente máxima da instituição e o empresário cujas empresas passaram a manter sucessivos contratos com a Santa Casa Saúde.

A relação entre os dois não seria apenas financeira. Alir e Paulo atuavam profissionalmente juntos na advocacia, compartilhavam escritório, causas e documentos profissionais antes mesmo de ela assumir a presidência da Santa Casa.

Esse vínculo passou a ser um dos elementos centrais da apuração sobre conflito de interesses e contratação das empresas.

Mariosa também teria transferido valores a Alir

Outro dirigente aparece ligado financeiramente à presidente.

Segundo o MP, Paulo Guilherme Mariosa, então diretor Financeiro Adjunto da Santa Casa e presidente do Comitê de Contratos, mantinha vínculo profissional e financeiro com Alir e realizou para ela “transferências de valores expressivos”.

O documento judicial analisado, porém, não discrimina o valor total dessas transferências. Mariosa também aparece na programação financeira que previa o pagamento de R$ 750 mil à Redvalue Tecnologia, outra empresa no centro das investigações.

Redvalue: pagamento de R$ 750 mil e execução muito menor

A Redvalue é a outra grande frente da Operação Antidotum.

Segundo o MP, a contratação foi conduzida sem estudo técnico preliminar, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração objetiva de vantagem econômica. Rinaldo Hakme Romano, então diretor Administrativo e Financeiro, e Alessandro Dias Junqueira, gerente Administrativo e fiscal do contrato, aparecem diretamente ligados ao procedimento.

Em um dos levantamentos apresentados no processo, os serviços comprovados corresponderiam a R$ 88.609,90, enquanto teriam sido efetuados pagamentos de R$ 750 mil. O Ministério Público calculou diferença de R$ 661.390,10 nesse recorte da execução.

O Conselho Fiscal também havia questionado a relação entre o que era pago e o volume efetivamente digitalizado.

Mesmo assim, segundo o MP, integrantes da administração teriam continuado participando da programação e liberação dos pagamentos.

Áudio fala em R$ 1,8 milhão e necessidade de dividir pagamento

Outro diálogo obtido durante a investigação envolve o então vice-presidente da Santa Casa, Jary Carvalho de Castro.

Segundo o MP, em áudio enviado a Maurício Benites, empresário ligado à Redvalue, Jary teria dito que R$ 1,8 milhão não poderia ser pago de uma única vez porque a Santa Casa estava sendo fiscalizada.

A decisão judicial também registra que Jary teria indicado que conversaria com Rinaldo Romano sobre a divisão dos pagamentos.

A Justiça, posteriormente, negou o pedido de prisão preventiva de Jary, por considerar ausente risco concreto, atual e individualizado que justificasse a medida mais grave. A busca e apreensão, no entanto, foi autorizada.

Patrimônio também entrou na mira

Além dos contratos e movimentações bancárias, o Ministério Público passou a analisar aquisições de imóveis.

O próprio órgão ressalva que a documentação cartorária ainda estava em análise e não representava necessariamente a totalidade das operações.

No caso de Paulo Duarte, foram localizadas duas compras realizadas juntamente com a esposa.

Em junho de 2023, o casal adquiriu apartamento por R$ 350 mil.

Em março de 2025, comprou outro apartamento, com três vagas de garagem, por R$ 670 mil. O pagamento foi ajustado, entre outras parcelas, em 12 prestações mensais de R$ 50 mil.

Somados os valores declarados nas escrituras, são R$ 1,02 milhão.

O Ministério Público chama atenção para o fato de a segunda aquisição ter ocorrido no mesmo período em que empresas ligadas a Paulo passaram a receber os pagamentos mais elevados da Santa Casa Saúde.

A coincidência temporal, entretanto, não prova que os imóveis tenham sido adquiridos com recursos provenientes dos contratos, questão que ainda depende da análise financeira.

Alir comprou imóvel de R$ 400 mil em 2025

O patrimônio de Alir também entrou na análise.

Em 2021, antes de assumir a presidência da Santa Casa, ela havia adquirido um imóvel declarado em R$ 450 mil. A escritura registrou três transferências destinadas ao pagamento.

O dado mais próximo do período investigado aparece em janeiro de 2025. Em 24 de janeiro daquele ano, Alir adquiriu outro imóvel residencial declarado em R$ 400 mil, pago no ato, segundo a escritura.

Mais uma vez, a aquisição isoladamente não constitui prova de irregularidade. O MP sustenta que é necessário cruzar patrimônio e movimentações financeiras para determinar a origem dos recursos.

Carro de R$ 350 mil virou assunto entre dirigentes

O documento traz ainda conversas internas sobre o patrimônio da diretoria.

Em áudio atribuído a Alessandro Junqueira, ele relata a repercussão causada dentro da Santa Casa depois que Rinaldo Romano teria trocado de veículo.

Na conversa, é mencionado que o automóvel custaria cerca de R$ 350 mil, além de comentários sobre aquisição de apartamento.

No mesmo diálogo, Alessandro afirma que não compraria naquele momento uma camionete Rampage justamente porque a evolução patrimonial dos diretores estava sendo observada pelo Conselho Fiscal.

“Eu não vou poder comprar a Rampage, não vou poder trocar de carro agora”, diz na gravação reproduzida pelo MP.

A conversa não demonstra, por si, aquisição ilícita de bens, mas foi utilizada pelo Ministério Público para sustentar que havia consciência dentro do grupo sobre a fiscalização patrimonial.

Enquanto isso, pacientes ouviam que não havia dinheiro

É justamente essa sobreposição de fatos que torna a investigação especialmente grave.

A população ouviu durante meses que a Santa Casa estava no limite. A instituição cobrou mais recursos públicos, alertou para o risco de desassistência e colocou diante de Estado, Município e sociedade a possibilidade concreta de redução da assistência.

Depois, os procedimentos efetivamente foram suspensos.

Não se tratava de um serviço qualquer. Eram pacientes esperando cirurgia cardíaca, ortopédica, vascular, pediátrica e outros procedimentos que interferem diretamente na saúde, na dor e, em determinadas circunstâncias, na possibilidade de sobrevivência.

Ao mesmo tempo, o Ministério Público afirma que empresas de um único núcleo receberam R$ 9,6 milhões em um ano, que houve uma transferência pessoal de mais de R$ 200 mil para a presidente, que outro diretor realizou transferências descritas como “expressivas” para ela e que centenas de milhares de reais eram programados para contratos cuja execução estava sendo contestada.

Esses fatos não significam que todo déficit financeiro da Santa Casa tenha sido provocado pelos contratos investigados. Tampouco o processo analisado autoriza afirmar que todo recurso que faltou ao atendimento do SUS tenha sido desviado.

Mas a investigação coloca uma pergunta inevitável: como uma instituição que dizia não ter recursos suficientes para garantir cirurgias e atendimento permitiu que contratos milionários cercados de questionamentos continuassem drenando seu caixa?

Fiscalização encontrava resistência

A pergunta se torna ainda mais relevante porque, segundo o Ministério Público, o Conselho Fiscal tentou obter contratos, relatórios de execução, notas fiscais, balancetes e comprovantes de pagamento.

A investigação acusa Alir Terra Lima e Beatriz Lemes da Silva, administradora da Santa Casa Saúde, de impedir sucessivamente o acesso integral a esses documentos pelo Conselho Fiscal, pela Controladoria-Geral do Estado e até pelo Poder Judiciário.

A resistência levou o juiz Eduardo Lacerda Trevizan, em outro processo, a registrar seu “espanto” diante da dificuldade da Santa Casa em apresentar suas contas.

Para o Ministério Público, a ocultação documental fazia parte da dinâmica investigada.

Prisões atingiram o núcleo da administração

A Operação Antidotum chegou ao comando da instituição em 11 de setembro.

Foram decretadas as prisões preventivas de Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites.

O Ministério Público comunicou posteriormente o cumprimento dos mandados de prisão e das buscas. Paulo da Cruz Duarte e Beatriz Lemes da Silva foram alvo de medidas cautelares de afastamento das funções e proibição de acesso à Santa Casa e à operadora Santa Casa Saúde.

Todos os fatos ainda estão sob investigação e não há condenação definitiva dos envolvidos.

A conta mais pesada não aparece nas planilhas

A Operação Antidotum poderá esclarecer quanto dinheiro saiu da Santa Casa, quem recebeu, qual parcela efetivamente correspondeu a serviços prestados e se houve desvio de recursos.

Mas existe uma conta que não aparece nos extratos bancários.

É a conta paga por quem depende do SUS.

Quando uma instituição filantrópica que recebe recursos públicos anuncia que não consegue operar, suspende cirurgias e coloca pacientes em espera, a discussão sobre suas finanças deixa de ser exclusivamente administrativa.

Passa a ser uma discussão sobre saúde pública.

E, diante do que agora consta da investigação, as cobranças feitas pela antiga direção aos governos e à sociedade precisam ser confrontadas também com aquilo que acontecia dentro da própria instituição.

Porque enquanto dirigentes discutiam contratos, pagamentos de centenas de milhares de reais e movimentações patrimoniais, quem esperava do lado de fora não estava discutindo balanços ou termos aditivos.

Estava esperando atendimento.

E, para um paciente, esperar uma cirurgia não é apenas um problema contábil. É dor, medo e, muitas vezes, risco de vida.

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