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Exposição de Caru Brandi traz pela primeira vez cultura trans ao Rio

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A Onça by A Onça
16:08 sábado, 7 março 2026
in Brasil
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Pela primeira vez, o artista gaúcho transmasculino não-binário Caru Brandi faz uma exposição individual no Rio de Janeiro e isso, para ele, é importante por trazer visibilidade à cultura trans, conforme se refere ao seu trabalho e ao de companheiros que produzem esta arte.

A mostra Fabulações transviadas de Caru Brandi, que pode ser vista até 22 de abril, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Catete, zona sul da cidade, abre o calendário 2026 do programa Sala do Artista Popular (SAP).

Notícias relacionadas:Peça de clássico grego discute violência de gênero e maternidade.Festival Internacional de Cinema de Brasília abre inscrições.Focus Cia de Dança celebra 25 anos com espetáculo no Rio.Caru Brandi afirmar estar muito feliz com o que chama de “abertura de caminhos” e por ser a primeira pessoa trans a expor neste espaço.

“Acho muito significativo, enquanto conquista da comunidade trans. Espero, inclusive, que isso se torne uma política não só do Centro de Folclore, mas de outras instituições aqui do Rio de Janeiro”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.

” “Fiquei muito feliz em poder inaugurar este espaço aqui”, afirmou Brandi. Foto: Gabriela Puchineli/Divulgação 

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O artista ficou satisfeito ainda pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular abrir espaço para um olhar sobre o conhecimento artístico a partir dos saberes trans. “Fiquei muito feliz em poder inaugurar este espaço aqui. É também a primeira vez que um projeto me chama para uma exposição fora de Porto Alegre”, comentou.

A exposição inclui obras do acervo do artista e outras criadas especialmente para a Sala do Artista Popular.

São cerâmicas e pinturas de Caru, que retratam, de forma lúdica e crítica, a transição de gênero. Todas as obras expostas estão à venda e as visitas são de terça a sexta-feira, das 10h às 18h e nos sábados e domingos e feriados, das 11h às 17h. A entrada é gratuita.

No início, Caru Brandi expressava a sua arte por meio da tatuagem, quando já fazia desenhos. Com o seu processo de transição de gênero e de conhecer pessoas transmasculinas e não binárias foi se reconhecendo nelas e o processo criativo começou a mudar radicalmente em 2018.

“Saio de uma coisa mais realista que eu fazia antes, para uma coisa bem mais ficcional. Aí começa meu processo artístico, junto com minha transição de gênero”, revelou.

Durante a pandemia, ele fazia faculdade de Direito e chegou a se formar em 2021, mas não foi adiante porque viu que o caminho na sua arte já se identifica com a transmasculinidade. “A pintura e o desenho, nessa época, veio como forma de encontro com essa comunidade.” Para ele, esse foi também um processo de coragem.

Com a sua preferência profissional já definida desde 2024, Caru Brandi cursa atualmente a faculdade de Artes Visuais, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Volto à academia como forma também de me profissionalizar enquanto artista. Entendi que precisava estudar. Foi importante porque me encontrei como arte-educador e a partir de 2024 trabalho na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre”, disse.

Performance

Antes da inauguração, na quinta-feira (5), o público pôde participar da oficina “Imaginários do barro”, com o artista, que propôs uma vivência no universo da escultura em cerâmica.

Ainda na abertura, os visitantes participaram de performance com os artistas Maru e Kayodê Andrade sobre a potência da cultura ballroom, bailes realizados nos anos 70 pela população LGBTQIA+, negra e latina nos Estados Unidos. Com  intervenções artísticas, desfiles e dança, a ballroom nasceu como uma forma de resistência.

Os dois artistas atuam na cena ballroom brasileira e em diferentes frentes da arte e do ativismo. Transmasculino não binário, Maru é modelo, atleta e multiartista/performer. Também transmasculino, Kayodê Andrade, de 25 anos, é modelo, ator, poeta, dublador e produtor cultural, reconhecido por sua atuação na comunidade LGBTQIAPN+. Kayodê é fundador do Coletivo TransMaromba, voltado à saúde mental e física de transmasculinos.

“Penso na coletividade. Trazer os meninos da ballroom para a exposição foi muito importante, porque foi uma forma de colocar outras pessoas junto comigo neste espaço. São processos que eu vou vivendo dentro de uma comunidade trans, me baseio nas minhas vivências, mas elas não são individuais. Falam de coletividade”, disse Caru Brandi.

Na visão do artista também são vivências muito invisibilizadas.

“Muita gente não sabe que pessoas como eu existem, que homens trans existem, que pessoas transmasculinas existem e em diversas formas. Não é de um único jeito que essa existência vai estar”.

O artista afirma que em seu trabalho busca também essa reflexão, de que existem diversas formas de ser trans e a exposição é ação educacional para as pessoas conhecerem a comunidade.

O texto do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular informa que a transmasculinidade se refere a pessoas que no momento do nascimento são categorizadas como do gênero feminino, mas ao longo da vida se reconhecem como pertencentes ao gênero masculino, embora, não necessariamente, se reconheçam com a categoria homem. Já a não-binaridade se refere ao não pertencimento ao binário de gênero homem ou mulher. 

A mostra Fabulações transviadas de Caru Brandi, que pode ser vista até 22 de abril, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Rio de Janeiro. A entrada é gratuita. Foto: Gabriela Puchineli/Divulgação 

Pesquisa

A pesquisa e o texto do catálogo da exposição são do antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva. Ele visitou o ateliê onde Caru Brandi trabalha em Porto Alegre,recentemente conquistado depois do projeto Além-mundos: memórias do (in)imaginário2, que ele desenvolveu de forma colaborativa com outros artistas trans no espaço independente Casa Baka.

“Ao retratar esses seres que desafiam dicotomias estabelecidas, do que é humano, do que é a natureza, o que é homem, o que é mulher, a exposição abraça dicotomias, no caso da arte”, afirmou Patrick em texto divulgado pelo centro..

Para o antropólogo, é um marco importante para a SAP apresentar o fazer artístico de uma pessoa trans em uma mostra individual. “Atualmente, há no Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) um esforço para pensar sobre os patrimônios desse segmento da sociedade brasileira com a criação do Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+, instituído através da Portaria do Iphan nº 260 de 27 de junho de 2025”, acrescentou Patrick.

De acordo com o diretor do CNFCP, Rafael Barros, é a primeira vez que a Sala do Artista Popular recebe um artista trans. Conforme disse, o trabalho de Caru é muito singular, muito expressivo, a partir da pintura e da cerâmica, mas que tensiona, esgarça, transborda os limites e os contornos do conceito de arte e de cultura popular.

Segundo Rafael, isso tem proporcionado ao espaço cultural entender um outro horizonte e uma outra perspectiva de trabalho que ajuda a pensar: O que é arte popular hoje?, qual o lugar da arte popular e qual o lugar do artista popular?.

“Em paralelo a isso, tem uma outra dimensão que é extremamente maravilhosa, que é a de compreender e entender o universo trans, o multiverso trans, os diversos universos que fazem parte das existências não-binárias, das existências queers como universos extremamente populares.”

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