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Mesmo depois de morta, Fabiola precisou ser ouvida: diário revela dor e violência antes do feminicídio

Mesmo depois de morta, Fabiola precisou ser ouvida: diário revela dor e violência antes do feminicídio

Onça Pintada by Onça Pintada
15:20 sexta-feira, 28 agosto 2026
in Artigos da Onça, Campo Grande, Polícia
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Relatório final da investigação reúne escritos, depoimentos e provas periciais que reconstruíram a violência psicológica sofrida por Fabiola Marcotti e afastaram a versão inicial de suicídio

A morte de Fabiola Marcotti não encerrou a violência que, segundo a investigação, ela vinha sofrendo. Depois de encontrada sem vida, em 18 de maio de 2026, na Chácara dos Poderes, em Campo Grande, ainda foi preciso reconstruir sua história para que aquilo que havia sido inicialmente tratado como um possível suicídio fosse compreendido como feminicídio.

O primeiro registro da ocorrência apontava para uma morte que poderia ter sido provocada pela própria vítima. Mas os vestígios encontrados no local começaram a contrariar essa hipótese. A perícia identificou incompatibilidades entre a dinâmica encontrada e a possibilidade de um disparo autoprovocado. A trajetória do projétil, os vestígios de sangue e outros elementos analisados passaram a indicar uma cena diferente daquela inicialmente apresentada.
Foi nesse momento que a investigação começou, de certa forma, a dar voz a uma mulher que já não podia mais falar.

A dor que ficou escrita

Entre os documentos analisados pelos investigadores estava o diário de Fabiola. Não era apenas um caderno encontrado durante a apuração. Era o registro de uma mulher tentando colocar no papel aquilo que vivia dentro de casa.

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A perícia grafotécnica confirmou que as anotações haviam sido escritas pela própria Fabiola. Para a investigação, o documento se tornou uma das peças mais importantes para compreender o contexto que antecedeu sua morte.

Nos escritos, aparecem medo, sofrimento, sensação de isolamento e relatos relacionados ao relacionamento abusivo. Em determinado trecho, a própria vítima registra um pedido de socorro. Em outro, escreve que não tinha mais nada a suportar. São palavras que, lidas depois de sua morte, ganham uma dimensão ainda mais dolorosa: ela estava tentando registrar o que acontecia enquanto ainda estava viva.

O relatório policial descreve que Fabiola relatava no diário a perda de autonomia, o controle exercido pelo agressor e uma violência psicológica que, segundo a investigação, fazia parte de um processo contínuo de destruição emocional.

Não se tratava, portanto, apenas do que aconteceu no dia 18 de maio. A investigação procurou entender o que havia acontecido antes.

Uma violência que não começou com o tiro

O relatório final descreve a existência de um ciclo de violência psicológica, marcado por medo, dependência emocional, controle e episódios de agressão.Depoimentos de familiares e pessoas próximas também teriam ajudado a confirmar esse cenário.

A família, segundo os autos, relatou mudanças no comportamento de Fabiola e situações relacionadas à convivência com o marido. O isolamento, o controle e a dependência financeira aparecem como elementos que ajudaram os investigadores a compreender a dinâmica daquela relação.

A investigação passou, então, a enxergar a morte não como um episódio isolado, mas como o desfecho de uma sequência de violências.

É justamente essa uma das marcas mais perversas da violência contra a mulher: muitas vezes, o último ato é o mais visível, mas não necessariamente o começo da história.

Depois da morte, as provas falaram por ela

A reconstrução também passou pelos celulares das pessoas envolvidas. Dados extraídos dos aparelhos ajudaram os investigadores a montar a sequência dos acontecimentos naquele dia.

Segundo o relatório, houve comunicação entre o investigado e Fabiola pouco antes da ocorrência. Depois, ligações foram feitas para outras pessoas, com informações sobre o que teria acontecido.

A perícia também analisou armas e munições encontradas na propriedade. O conjunto de exames buscou verificar se os objetos poderiam estar relacionados ao disparo e à dinâmica da morte.

O resultado da investigação foi apresentado de forma contundente no relatório final: para a Polícia Civil, havia materialidade delitiva e indícios suficientes de autoria para enquadrar o caso como feminicídio, além de violência psicológica e crimes relacionados às armas encontradas.

A segunda violência

Há uma dimensão particularmente dolorosa nessa história: Fabiola precisou continuar sendo investigada depois de morta para que sua própria morte fosse reconhecida.

Primeiro, foi necessário questionar a versão de que ela teria tirado a própria vida. Depois, compreender os vestígios. Ouvir testemunhas. Recuperar mensagens e ligações. Examinar documentos. Analisar a cena. E, principalmente, olhar para aquilo que ela própria havia deixado escrito.

O diário tornou-se uma espécie de testemunho póstumo

A mulher que, segundo a investigação, passou por medo, controle e sofrimento psicológico não poderia mais prestar depoimento. Mas havia deixado registros daquilo que sentia. E foram esses registros, somados às demais provas, que ajudaram a reconstruir uma história que não poderia terminar simplesmente com a palavra “suicídio”.

O relatório policial é explícito ao apontar que o diário documentava a violência psicológica e que o feminicídio teria sido o desfecho de um processo prolongado de destruição psicológica.

No fim, a investigação não devolve a vida de Fabiola. Não apaga a dor da família e não desfaz aquilo que aconteceu naquela casa.

Mas consegue fazer algo fundamental: impedir que a última versão sobre ela fosse aquela contada por quem, segundo a investigação, teria provocado sua morte.

Fabiola morreu. Mas sua história permaneceu.

E, depois da morte, foi preciso investigar cada detalhe para que ela pudesse finalmente ser reconhecida não como alguém que simplesmente morreu, mas como uma mulher que, segundo as provas reunidas pela Polícia Civil, foi vítima de um ciclo de violência que terminou em feminicídio.

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Tags: DestaqueMSNotíciasPolícia

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