Pois é, quem pensa que o “Lindão do Pantanal”, Delcídio do Amaral, estava politicamente morto pode se surpreender. Pesquisas e levantamentos internos mostram que o ex-senador ainda conserva um recall eleitoral considerável, especialmente entre os eleitores da esquerda — justamente o terreno onde o neopetista Fábio Trad esperava caminhar praticamente sozinho.
Delcídio não é um personagem estranho para esse eleitorado. Engenheiro eletricista, foi ministro de Minas e Energia no governo Itamar Franco, diretor da Petrobras durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso e secretário estadual de Infraestrutura no governo Zeca do PT. Em 2002, foi eleito senador pelo Partido dos Trabalhadores e conquistou a reeleição em 2010.
Também disputou o Governo de Mato Grosso do Sul em 2006, quando chegou ao segundo turno contra André Puccinelli. Mais tarde, tornou-se líder do governo Dilma Rousseff no Senado. Ou seja: durante mais de uma década, Delcídio foi uma das principais figuras do PT no Estado e teve sua imagem fortemente vinculada à esquerda sul-mato-grossense.
Sua trajetória, claro, carrega um capítulo turbulento. Preso durante a Operação Lava Jato, teve o mandato cassado em 2016, deixou o PT e passou alguns anos afastado do protagonismo eleitoral. Em 2018, foi absolvido pela Justiça Federal no processo envolvendo a acusação de obstrução das investigações relacionadas a Nestor Cerveró.
Agora filiado ao PRD e novamente candidato ao Governo do Estado, Delcídio demonstra que sua ligação com parte do eleitorado petista não desapareceu junto com a ficha de filiação. Assim como o “tio Pucci”, André Puccinelli, ele sempre parece guardar algum recall eleitoral no fundo da gaveta.
É justamente aí que começa o problema para a esquerda no estado.
Advogado, professor universitário, ex-presidente da OAB-MS e integrante de uma das famílias mais tradicionais da política estadual, Fábio exerceu três mandatos como deputado federal. Filho do ex-deputado Nelson Trad e irmão do senador Nelsinho Trad e do ex-prefeito Marquinhos Trad, construiu a maior parte de sua carreira política no MDB e no PSD.
Somente em 2025 desembarcou no PT, apresentando a filiação como um reencontro com suas origens ideológicas. Agora candidato ao Governo, tenta consolidar seu nome entre os eleitores de Lula e ocupar o espaço de principal representante da esquerda em Mato Grosso do Sul.
Tanto, que no primeiro debate, ele não se apresentou como Trad, e sim candidato do Lula, apesar de não omitir o sobrenome.
Mas uma ficha nova de filiação não apaga, por decreto, a memória política do eleitor. E Trad é Trad, seja Nelsinho Trad que sempre votou com as pautas bolsonaristas, ou Marquinhos Trad, agora candidato a deputado federal.
Nesse quesito, o ‘Antônio Fagundes Pantaneiro’ tem vantagem. Embora esteja fora do PT há uma década e carregue uma trajetória controversa, Delcídio ainda desperta identificação em uma parcela da esquerda. Para parte desse público, Fábio é o recém-chegado; Delcídio, apesar de tudo, é uma figura conhecida, que viveu os anos de maior força do partido no Estado e chegou a representar diretamente o projeto petista no Senado e na disputa pelo Governo.
Há tracking interna (as famigeradas) indicando que Fábio Trad já teria perdido cerca de cinco pontos para o ex-galã pantaneiro. O dado ajuda a explicar por que a candidatura de Delcídio não pode ser tratada apenas como uma tentativa de ressurreição política. Ele pode não ter a estrutura do PT, mas carrega algo que não se fabrica de uma hora para outra: memória eleitoral.
Além dos dois, também disputam o Governo de Mato Grosso do Sul o governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição; João Henrique Catan (Novo); Economista Renato Gomes (DC); Jeferson Bezerra (Agir); Lucien Rezende (Psol); e Daniel Lemes (PCO).
A eleição tem oito candidatos, mas dentro do campo da esquerda uma disputa particular começa a ganhar forma. De um lado, Fábio Trad, o neopetista escolhido para vestir a camisa do partido em 2026. Do outro, Delcídio, o ex-petista que saiu chamuscado, mas aparentemente não foi esquecido.
Fábio tem a legenda, a estrutura e o apoio de Lula. Delcídio tem o nome, a história e um recall que insiste em sobreviver.
E, em política, memória também dá voto. Mas se isso vai mudar muita coisa no cenário atual, aí é outra história.






