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Reconhecimento facial amplia público nos estádios e reforça segurança

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8:28 sexta-feira, 3 abril 2026
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A cultura de colecionar os ingressos adquiridos para ver o time do coração está com os dias contados. Há quase um ano, o acesso a estádios com capacidade para mais de 20 mil pessoas se dá, obrigatoriamente, por meio da biometria facial. Sem necessidade de apresentar um tíquete na entrada, o torcedor libera a catraca apenas pelo reconhecimento do rosto, cadastrado no momento da compra da entrada.

“O objetivo principal da biometria é fazer com que o ingresso seja personalizado. Com isso, você elimina a possibilidade de esse ingresso ficar circulando entre várias pessoas, de poder emprestar, trocar, enfim. Elimina a fraude também, porque você não tem como copiar a face”, descreveu Fernando Melchert, diretor de Tecnologia da Bepass, uma das empresas que desenvolvem o sistema no país.

Notícias relacionadas:Estudo aponta riscos de tecnologias de reconhecimento facial.Estudo vê violação em reconhecimento facial de crianças nos estádios.PM: reconhecimento facial auxiliou a prisão de 500 pessoas no Rio .A exigência da biometria nas arenas para mais de 20 mil torcedores consta no artigo 148 da Lei Geral do Esporte, de 14 de junho de 2023. A legislação previu dois anos para adoção do sistema.

O Allianz Parque, em São Paulo, foi o primeiro estádio do mundo a ter a tecnologia em todos os acessos, ainda em 2023. Segundo a Bepass, que implantou o reconhecimento facial na arena do Palmeiras, a velocidade para entrada do público aumentou quase três vezes. Já o Verdão ampliou em pelo menos 30% o número de sócios-torcedores.

“Venho com minhas filhas. Para nós, é mais prático e rápido, pois compramos [o ingresso] on-line, fazemos a [biometria] facial uma vez e já libera”, contou o motoboy Marcos Antônio de Oliveira Saturnino, que conversou com a TV Brasil antes de cruzar a catraca da Arena Barueri para o clássico entre Palmeiras e Corinthians pelo Campeonato Brasileiro Feminino.

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“Sem dúvida nenhuma, houve um aumento de famílias nos estádios, especialmente mulheres [32%] e crianças [26%] entre 2023 [antes da Lei Geral do Esporte] e 2025”, destacou Melchert.

O público geral nas arenas também cresceu. A média de torcedores presentes no Brasileirão Masculino do ano passado foi de 25.531 por jogo. Considerando apenas as 269 partidas após a biometria facial se tornar obrigatória, a média foi de 26.513 pessoas nos estádios. Cerca de 4% superior.

Há ainda clubes que instituíram o reconhecimento facial mesmo sem a capacidade mínima exigida pela lei. Na Vila Belmiro, do Santos, cabem cerca de 15 mil pessoas. Em 2024, o Peixe iniciou a operacionalização da entrada de torcedores via biometria. O Alvinegro estima uma economia de R$ 100 mil mensais (ou R$ 1,2 milhão anuais) apenas por não ter mais de confeccionar carteirinhas.

“Conseguimos cadastrar um número recorde de pessoas e oferecemos, ao mesmo tempo, mais condições de conforto e segurança para os torcedores que estejam vindo à Vila Belmiro. Nós temos a possibilidade, com o reconhecimento facial, de evitar questões inerentes a ingressos falsos e cambistas”, afirmou o presidente do Santos, Marcelo Teixeira.

O argumento referente à segurança se dá pela conexão entre os sistemas de biometria com o Banco Nacional de Mandados de Prisão. Os dados são cruzados e, se o torcedor tiver alguma pendência jurídica, a Polícia é acionada. No clássico entre Santos e Corinthians, na Vila Belmiro, em 15 de março, pelo Brasileirão Masculino, três homens foram detidos. Um deles era procurado por roubo e os demais pelo não pagamento de pensão alimentícia.

Em nível nacional, um acordo de cooperação envolvendo a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os ministérios do Esporte e da Justiça e Segurança Pública, em 2023, deu origem ao projeto “Estádio Seguro”. Em São Paulo, uma parceria entre os clubes e a Secretaria de Segurança Pública (SSP) integra os equipamentos a um sistema de monitoramento com câmeras em todo o estado. No programa chamado “Muralha Paulista”, mais de 280 foragidos foram identificados e detidos quando tentaram acessar as arenas.

“Como o ingresso é personalizado, a gente sabe quem é o comprador. Isso é enviado para a Secretaria de Segurança, que faz uma varredura para ver se há alguma pendência e retorna a informação para o controle de acesso e, obviamente, ao time de segurança que fica nas arenas. O objetivo é que a Polícia cumpra esse mandato no momento que essa pessoa frequentar o estádio”, descreveu Melchert.

O receio de para onde vão os dados coletados por meio da biometria, porém, existe. O relatório “Esporte, Dados e Direitos”, por exemplo, questiona a adoção da tecnologia nos estádios e seu banimento, afirmando ser a mesma posição de “instituições e organizações civis nacionais e internacionais”. Desenvolvida pelo “O Panóptico”, projeto do Centro de Estados de Segurança e Cidadania (CESeC), a análise chama atenção para “privacidade dos torcedores, vulnerabilização de crianças e adolescentes e o já bem conhecido racismo algorítmico”.

Um alerta é sobre a datificação, que consiste na transformação de ações do público em dados que possam ser monitorados, o que costuma ser uma informação relevante para grandes empresas. O relatório critica a vinculação da compra do ingresso à coleta da biometria, por considerar que as pessoas seriam impostas a essa datificação, inclusive menores, atingindo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Outro trata de riscos de identificações equivocadas e prisões injustas. O estudo do CESeC lembra que, em 2024, um homem negro, torcedor do Confiança, foi retirado da Arena Batistão, em Aracaju, durante a final do Campeonato Sergipano. O cruzamento de dados a partir do sistema de reconhecimento facial o fez ser apontado como foragido, o que se provou errado. Ficou, porém, o constrangimento.

O relatório recorre, ainda, a um artigo de 2018, das pesquisadoras Joy Buolamwini e Timnit Gebru. O estudo indica que os algoritmos de biometria facial teriam acurácia variável conforme raça e gênero. Enquanto as taxas de erro na identificação de mulheres negras eram de 34,7%, elas não passavam de 0,8% com homens brancos.

Questionado sobre os argumentos contrários ao reconhecimento facial, Melchert, da Bepass, afirmou que o armazenamento e o tráfego da biometria captada ocorrem de forma vetorizada e que não é a foto do usuário que transita no sistema. Ele também reconheceu que nenhum sistema ainda é 100% livre de falhas, mas que o erro mais comum seria o não reconhecimento da face.

“Você tem um ajuste, que a gente chama de ajuste de acurácia, que é o grau de precisão entre a biometria usada como referência para aquela do momento da entrada. É muito difícil dar um falso positivo. Isso é um em um milhão”, defendeu o diretor de Tecnologia, que não crê em recuo quanto à ampliação do sistema, inclusive fora do ambiente esportivo.

“Shows e eventos, então, praticamente todos [terão acessos com biometria facial]. A gente vê uma grande movimentação de produtoras de eventos já indo atrás, porque são muitos os ganhos de segurança, de fluidez, de acabar com o cambismo, entendeu. Isso gera ganho financeiro, maior adesão ao produto. Diria que já é uma realidade”, concluiu.

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