Buriticupu, distante 415 quilômetros (km) de São Luís, é uma cidade cercada por buracos que têm provocado o colapso de ruas, a perda de moradias e colocado milhares de famílias em situação permanente de risco.
Algumas das voçorocas, termo correto para o fenômeno que atinge a cidade, chegam a medir mais de 30 metros de profundidade e engolem casas, ruas e a cada período chuvoso tiram a paz dos pouco mais de 35 mil moradores do município.
Notícias relacionadas:Plano busca fortalecer Sistema Nacional do Meio Ambiente até 2036.Instabilidade geopolítica acelera busca por independência do petróleo.Especialistas alertam para riscos ambientais de intervenções em praias.A situação que vem se agravando há pelo menos quatro décadas e fica mais evidente no período de chuvas.
Marcelino Farias explica que a geomorfologia da região contribui para as voçorocas – Marcelino Farias/Arquivo Pessoal
Na avaliação do professor doutor do Departamento de Geociências da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Marcelino Farias a situação do município serve de alerta para o que acontece quando diferentes fatores entram em cena, a exemplo de um terreno frágil, do desmatamento ilegal e da ausência de projetos de drenagem de águas pluviais, entre outros.
“Buriticupu é um caso típico de mau uso do solo, especialmente urbano, que deve ser utilizado como um exemplo a ser evitado em outras realidades, tanto do Maranhão quanto do restante do país”, disse o pesquisador à Agência Brasil.
Originado do tupi-guarani, o termo voçoroca significa buraco grande. O nome é atribuído às grandes escavações do solo provocadas pelas águas das chuvas, entre outros fatores. A supressão da vegetação, com o desmatamento ilegal, entre outros fatores, faz com que a água das chuvas corra pela superfície, criando microcanais. Com o tempo eles vão se ampliando até chegar ao estágio final das voçorocas.
O professor explica que Buriticupu tem uma confluência de fatores naturais que contribuem muito para a erosão, mas que o desmatamento ilegal acabou incrementando bastante os processos erosivos.
“Muitas áreas foram desmatadas sem autorização, sem controle, para a implantação da pecuária, e a pecuária hoje é uma das principais causas da erosão na zona rural”.
Agravamento
Nos últimos três anos a situação vem se intensificando, com inúmeras ruas sendo tomadas pelas crateras. Diante do cenário, o governo federal destinou recursos em 2024 para projetos de drenagem na região, mas as medidas não reverteram o problema. Em fevereiro de 2025, a prefeitura de Buriticupu decretou estado de calamidade pública devido ao agravamento das erosões, que atingem casas e ruas.
Segundo Farias, o desmatamento no entorno do município, a pavimentação sem rede de drenagem, a falta de obra de contenção dentro dos parâmetros técnicos fazem com que a situação se agrave e dificultem a solução do problema. O especialista ressalta que nada de concreto foi feito para combater a erosão.
“As áreas continuam sendo urbanizadas próximo à encosta, as ruas continuam drenando para essas encostas e não há nenhuma obra de drenagem, de contenção da velocidade ou do fluxo de água para resolver o problema”, aponta o professor.
Marcelino Farias explica que a geomorfologia da região, com o relevo ondulado, a cidade cercada por vales e a concentração de chuvas, durante determinado período do ano, contribuem para agravar a situação.
A cidade vem crescendo muito, de acordo com Farias o que piora a situação. “Isso faz com que mais ruas surjam, mais ruas sejam pavimentadas e mais água de esgoto e água pluvial sejam coletadas e direcionadas para a encosta, sem o devido cuidado com o fluxo dessa água para não causar erosão. Isso vai incrementar, então, os processos erosivos já existentes e fazer com que novos processos erosivos surjam”, reiterou.
Caso medidas urgentes e estruturais não sejam adotadas, o cenário aponta para risco de colapso urbano. Entre as medidas apontadas estão soluções baseadas em diagnostico com uso de geotecnologias, em bioengenharia, como retaludamento, revegetação e implantação de sistemas eficientes de drenagem das águas pluviais e do esgoto.
O professor chama atenção para a necessidade de o poder público municipal tomar a frente do processo, inclusive debatendo o crescimento urbano, planejando a ocupação do solo e impedindo que áreas vulneráveis sejam ocupadas.
“O poder público municipal tem que agir imediatamente para conter os processos erosivos. Isso só vai ser possível com a atualização do plano diretor, que vai proibir e controlar o uso de áreas que são vulneráveis à erosão e que não podem ser ocupadas”, defende o professor.
“Também é preciso que haja obras de drenagem efetivas que controlem o fluxo de água nas áreas de encosta, que o esgoto tenha uma destinação correta, não sendo jogado nessas encostas, favorecendo a erosão”, ressaltou.
Prefeitura
A Agência Brasil tentou contato com a prefeitura de Buriticupu e aguarda posicionamento.
Nos últimos dias, há uma referência indireta ao problema das voçorocas no município. Em uma rede social, a prefeitura publicou um alerta, diante do recente grande volume de chuva.
Em 72h, iniciadas no dia 4, foram registrados aproximadamente 114 mm de chuva e a previsão é de que elas intensas continuem.
A nota diz que o município está sob alerta moderado para ocorrências de movimento de massa, emitido pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN). O comunicado chama atenção para o fato de que as constantes chuvas no município podem provocar deslizamentos de barrancos e encostas.
“A orientação do Corpo de Bombeiros é para que a população que reside em área de risco fique atenta a qualquer sinal de perigo, como alagamentos, enxurradas, deslizamentos, desabamentos, trincas em paredes, árvores ou postes inclinados. Caso perceba qualquer sinal, abandone o local imediatamente e procure abrigo fora da área de risco.