O Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB) recebe a partir desta quarta-feira (11) a exposição Vetores-Vertentes: Fotógrafas do Pará, idealizada pelo Museu das Mulheres.
A mostra reúne 170 obras de 11 fotógrafas paraenses ─ de três gerações ─ e propõe uma experiência que incorpora recursos sensoriais e tecnológicos.
Notícias relacionadas:Amazônia negra será protagonista no desfile da Mangueira em 2026.Governo lança edital para combate ao desmatamento na Amazônia.Livro resgata obra de Insley Pacheco, pioneiro da fotografia no Brasil.O recorte inclui nomes pioneiros como Leila Jinkings, Cláudia Leão, Bárbara Freire, Paula Sampaio e Walda Marques, passa por artistas como Evna Moura, Renata Aguiar, Nay Jinkings e Nailana Thiely, até chegar às artistas mais jovens, como Deia Lima e Jacy Santos.
O público tem a oportunidade de explorar parte das fotografias em realidade aumentada. Na Instalação Icamiabas, é possível ter acesso às composições aromáticas inspiradas em guerreiras indígenas amazônicas.
Já no filme de realidade virtual Mukathu-hary (“Curandeira”, em tupi), o espectador é transportado para uma aldeia indígena de paisagem milenar. As salas da exposição trazem narrativas visuais que abordam identidade, território, memória, ancestralidade e resistência.
Identidade e fotografia expandida
Para a fotógrafa paraense Evna Moura, participar da exposição representa um reencontro com a própria trajetória. A produção da artista Evna dá destaque às ilhas e comunidades amazônicas, como Combu e Marajó, e a mostra traz fases diferentes do olhar dela.
Entre as obras expostas, há fotografias em preto e branco, coloridas e as chamadas fotos expandidas, que aproximam arte e experimentação técnica. Um exemplo são os trabalhos feitos a partir de impressões em folhas, no método de fototipia com pigmentos naturais.
A artista destaca ainda o caráter intergeracional da mostra e como o trabalho dela como artista e educadora tem impactado novas gerações.
“Cláudia Leão foi minha professora na universidade e é uma inspiração. Leila Jinkings também é uma referência fundamental. Estar aqui com essas mulheres é muito significativo”, conta Evna.
Fotógrafa Evna Moura participa da Exposição no CCBB Rio Foto: Ana Paula Amorim/Divulgação
“Já encontrei ex-alunos que hoje são formados em artes visuais e dizem que escolheram esse caminho por causa das oficinas que ministrei. É muito bonito ver esses encontros”.
A presença da Amazônia como eixo central de sua produção também aparece como elemento político e simbólico que ajuda a romper visões estereotipadas.
“Durante muito tempo, nossa identidade foi ferida. Nossos traços e nossa cultura não eram valorizados. Trazer esses elementos para o Sudeste é também afirmar outras narrativas sobre nós. Mostrar uma Amazônia que não é apenas a da miséria, mas também da riqueza cultural, estética e humana”, diz Evna.
Pioneirismo e memória visual
Nome fundamental da fotografia paraense, Leila Jinkings revisita, na exposição, imagens produzidas desde o final dos anos 1970. Entre as obras selecionadas, ela destaca imagens de povos indígenas, travestis e registros de manifestações políticas.
“Gosto muito das fotografias do povo Kayapó. São imagens que levantam reflexões sobre choque cultural com os não indígenas”, diz Leila.
A fotógrafa relembra também o contexto histórico de parte de sua produção.
“Fotografei repressões durante a ditadura. Era um período duro, mas fundamental para compreender o papel da imagem para trazer luz para aqueles acontecimentos tão difíceis”, diz Leila.
Nome fundamental da fotografia paraense, Leila Jinkings tem trabalho exposto no CCBB Rio. Foto: Ana Paula Amorim/Divulgação
Narrativa feminina
A curadora Sissa Aneleh explica que a organização da exposição reflete uma leitura histórica e conceitual da fotografia paraense. A proposta dialoga diretamente com sua pesquisa acadêmica de mais de 15 anos.
Segundo Sissa, a mostra não pretende esgotar a produção amazônica, mas evidenciar sua potência.
“Uma exposição nunca será suficiente para mostrar toda a produção artística do Pará, mas podemos revelar sua força conceitual, estética e narrativa”, diz Sissa.
A noção de “visualidade amazônica” surge como eixo estruturante da exposição.
“É um conceito que começou a ganhar força nas décadas de 70 e 80, quando artistas passaram a refletir sobre o que seria imediatamente identificável com a Amazônia. Elementos recorrentes, como água, território e presença feminina atravessam diferentes obras”, conclui a curadora.
Serviço
Vetores-Vertentes: Fotógrafas do Pará
Local: CCBB Rio de Janeiro
Temporada: 11 de fevereiro a 30 de março
Visitação: quarta a segunda, das 9h às 20h
Ingressos: site do CCBB e link da bio do Museu das Mulheres
Entrada: gratuita
Classificação livre