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EJA Mulher: voltar a estudar também é recuperar sonhos interrompidos

EJA Mulher: voltar a estudar também é recuperar sonhos interrompidos

Onça Pintada by Onça Pintada
15:19 terça-feira, 8 setembro 2026
in Política
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Programa atende quase 300 mulheres em três escolas estaduais e transforma a sala de aula em espaço de acolhimento, autonomia e reconstrução de projetos de vida

Aos 44 anos, Nicácia Tereira de Paula acreditava que alguns sonhos haviam ficado definitivamente para trás. Diarista, mãe de quatro filhos e avó de sete netos, ela enfrentou um câncer, perdeu o pai e atravessou problemas familiares, depressão e isolamento. Foi quando a vida parecia ter perdido as cores que surgiu a oportunidade de voltar à escola.

“Eu estava muito depressiva, vivia sob medicação e me isolei. Quando surgiu o EJA Mulher, não pensei duas vezes. Com o apoio dos meus filhos e netos, me matriculei e, lá, me reencontrei”, conta.

O recomeço aconteceu na Escola Estadual Vereador Cristóvão Silveira, no Jardim Noroeste, em Campo Grande. Entre as alunas, a unidade ganhou um nome carregado de afeto: “Escola do Amor”.

Foi nesse espaço que Nicácia percebeu que concluir os estudos não significava apenas recuperar o tempo longe da sala de aula. Era também uma oportunidade de voltar a imaginar o futuro.

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“Vi que poderia dar continuidade a tudo aquilo que deixei para trás. Hoje, meu maior desejo é viver, concluir meus estudos e me formar. Se Deus quiser, vou chegar lá”, afirma.

A história de Nicácia ajuda a mostrar o alcance do EJA Mulher, iniciativa do Governo de Mato Grosso do Sul destinada a mulheres jovens, adultas e idosas que não concluíram a educação básica. Atualmente, quase 300 alunas são atendidas em três escolas estaduais. Elas integram um universo de aproximadamente 5,7 mil estudantes matriculados na Educação de Jovens e Adultos na Rede Estadual de Ensino.

Mais do que oferecer vagas, o programa busca enfrentar dificuldades que muitas vezes impedem mães e avós de permanecerem na escola. Nicácia, por exemplo, precisava levar os netos para as aulas para não deixá-los sozinhos e, ao mesmo tempo, não abandonar novamente os estudos.

A escola mantém um espaço para receber as crianças enquanto as responsáveis estudam.

“Eu levava meus netos comigo para não deixá-los sozinhos e também para não faltar às aulas. Temos profissionais dedicados e amorosos que cuidam das crianças”, relata.

A transformação provocada pela volta à escola também mudou a forma como Nicácia se relaciona com outras mulheres. Hoje, ela incentiva principalmente aquelas que enfrentam relacionamentos abusivos ou situações de violência a enxergarem a educação como uma possibilidade de reconstrução.

“Eu falo: ‘Gente, estudem, voltem para a escola’. Ali encontramos acolhimento, profissionais excelentes e pessoas em quem podemos nos espelhar.”

Ao lembrar o momento em que retomou os estudos, Nicácia volta ao nome escolhido pelas próprias alunas: “A Escola do Amor surgiu na minha vida no momento em que eu mais precisei.”

Recomeço que inspira os filhos

Na mesma escola, Geovana Ojeda de Moraes, de 32 anos, descobriu que a decisão de voltar a estudar pode transformar não apenas a vida da aluna, mas também a de toda a família.

Mãe de três filhos e trabalhadora da construção civil, Geovana retornou à sala de aula depois de um período difícil. Um grave acidente envolvendo o filho do meio despertou nela o desejo de construir uma trajetória profissional na área da saúde.

Técnica de enfermagem, fisioterapia e neurologia passaram a fazer parte dos planos para o futuro.

“Eu vi aquilo não só como um recomeço, mas como uma forma de ampliar minhas metas e meus objetivos”, afirma.

Para continuar estudando, Geovana precisou conciliar o trabalho, os cuidados com os filhos e a rotina escolar. Em alguns momentos, chegou a duvidar que conseguiria seguir em frente.

“Eu achei que não daria conta”, recorda.

As dificuldades não se resumiam ao cansaço. Houve dias em que faltou alimento dentro de casa. Ainda assim, ela continuou frequentando as aulas.

“Teve dias muito difíceis, em que faltava alimento em casa. E, mesmo assim, eu vinha para a escola. Muitas vezes, era aqui que meus filhos jantavam.”

Relatos como o de Geovana mostram que o EJA Mulher vai além da recuperação da escolaridade. Para muitas alunas, a permanência na escola depende de uma rede de acolhimento capaz de compreender uma rotina marcada pelo trabalho, pelos cuidados com a família e pelas dificuldades financeiras.

Nove meses depois de retornar à sala de aula, Geovana já percebia mudanças na própria forma de enxergar a vida.

“Minha mente é mais forte, mais confiante. Eu sei quem eu sou e onde quero chegar.”

A transformação também alcançou os filhos. Um dia, a filha de 12 anos contou que havia tirado nota 8,5 e disse que queria seguir o exemplo da mãe. Agora, as duas compartilham o sonho de chegar à faculdade.

“Ela falou que queria ser como eu, tirar as melhores notas. Hoje, sonha em fazer faculdade comigo. E isso não tem preço.”

Educação, autonomia e novas perspectivas

Os números ajudam a dimensionar o alcance da política pública, mas são as histórias das alunas que revelam o significado da iniciativa. Uma mãe que retorna à escola mostra aos filhos que os estudos interrompidos podem ser retomados. Uma avó que leva os netos para a sala de aula ensina que os projetos pessoais não têm prazo de validade.

Sob a gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, o EJA Mulher integra as ações estaduais voltadas à educação, à autonomia e aos direitos das mulheres.

“Quando uma mulher volta para a escola, ela não está apenas retomando os estudos. Muitas vezes, está retomando projetos que foram interrompidos pela necessidade de trabalhar, cuidar dos filhos e da família ou enfrentar situações muito difíceis ao longo da vida”, afirma Riedel.

Segundo o governador, oferecer a matrícula é apenas uma parte do processo.

“O EJA Mulher precisa oferecer não apenas a oportunidade da matrícula, mas condições para que essas mulheres permaneçam estudando, conquistem autonomia e possam construir novas perspectivas para si e para suas famílias”, completa.

Para Geovana, essa transformação pode ser resumida em uma frase: “O amor é isso: transformar uma vida sem sentido em sonhos, motivações e exemplo para o futuro.”

No Jardim Noroeste, esse futuro começa em gestos cotidianos: uma mulher que vence o cansaço e entra na sala de aula, uma avó que leva os netos para não faltar e uma filha que vê a mãe estudando e também passa a sonhar com a faculdade.

Entre livros, crianças, professores e mulheres que carregam histórias inteiras nos ombros, cada aula se torna a confirmação de que nunca é tarde para reescrever as próximas páginas da própria vida.

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