Segundo o relato, homem controlava os R$ 11 mil que ela recebia de pensão, monitorava depoimentos pelo viva-voz e usava imagens possivelmente manipuladas por inteligência artificial para afastá-la da família
Uma mulher que procurou a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para acusar o ex-marido e o próprio irmão de ameaça acabou revelando que a história não era verdadeira e que estaria sendo pressionada pelo atual companheiro a registrar falsas ocorrências contra familiares. O caso aconteceu na noite de sexta-feira (11), em Campo Grande.
Inicialmente, ela afirmou que o ex-marido e o irmão haviam estacionado uma caminhonete perto de sua residência e apontado armas de fogo em sua direção. A situação também configuraria descumprimento de medidas protetivas concedidas em favor dela.
Ao conferir o documento antes da assinatura, porém, a autoridade policial percebeu inconsistências no relato e reconheceu os nomes citados, que já haviam aparecido em outro atendimento realizado cerca de um mês antes.
A polícia também tinha conhecimento de uma denúncia recebida por meio do Ligue 180, na qual a mulher aparecia como possível vítima do atual companheiro. Conforme o registro policial, o homem também utilizava um nome falso.
Chamava para uma conversa reservada, longe do companheiro, a mulher apresentou uma versão completamente diferente.
Controle começou após encontro pelo Tinder
A mulher contou que conheceu o atual companheiro pelo aplicativo Tinder e iniciou o relacionamento em maio deste ano. Pouco depois, ele passou a morar na residência dela, onde também vivem seus três filhos: um adolescente de 15 anos, uma menina de 8 anos e o filho mais velho, que possui deficiência física e mental.
Segundo o depoimento, desde o início da relação o homem passou a controlar intensamente sua vida, determinando com quem ela poderia conversar e promovendo seu afastamento de familiares e amigos.
Ele afirmava que as pessoas próximas estariam tramando contra ela, desejavam o seu mal e que somente ele seria digno de confiança.
Ainda segundo a mulher, o companheiro apresentava supostas capturas de tela de conversas atribuídas ao ex-marido e à mãe dela. Nas mensagens, possivelmente criadas ou manipuladas com inteligência artificial, os familiares teriam chamado a mulher de “cruz” e “fardo”.
Os conteúdos eram usados para convencê-la de que a família não gostava dela e reforçar seu isolamento.
Companheiro controlava dinheiro e aplicativos bancários
A mulher também afirmou que perdeu o controle sobre a própria vida financeira. Ela recebe aproximadamente R$ 11 mil mensais de pensão alimentícia paga pelo ex-marido, mas disse que deixou de ter acesso ao dinheiro depois do início do novo relacionamento.
O companheiro teria afirmado que o ex-marido não estava mais fazendo os pagamentos. Ele também teria se apoderado do celular da mulher, no qual estavam instalados os aplicativos bancários, passando a administrar as contas e realizar saques e movimentações sem que ela tivesse controle dos valores.
Para justificar a situação, o homem alegava possuir uma grande quantia retida pela Receita Federal. Ele prometia que, assim que o dinheiro fosse liberado, compraria uma casa no condomínio Alphaville e colocaria o imóvel no nome dela.
Mulher diz que era afastada dos próprios filhos
O controle também ocorria dentro da residência. A mulher relatou que o companheiro limitava o contato dela com os filhos, determinava quais assuntos poderiam ser conversados e interferia nos cuidados prestados ao filho com deficiência.
A situação teria provocado intenso sofrimento psicológico. Ela afirmou que já não se sentia livre nem mesmo para conviver normalmente com os próprios filhos dentro de casa.
Ainda conforme o depoimento, o companheiro dizia exatamente o que ela deveria declarar nas delegacias. A mulher era levada por ele até as unidades policiais e, durante os atendimentos, permanecia em contato pelo telefone, no viva-voz, para que o homem pudesse acompanhar o depoimento e verificar se ela estava seguindo as ordens.
Denúncia contra familiares era falsa
Em relação à ocorrência registrada na sexta-feira, a mulher reconheceu que não viu nenhuma caminhonete perto de sua casa, não presenciou ninguém portando arma de fogo e não teve qualquer arma apontada em sua direção.
Ela afirmou que procurou a delegacia porque o companheiro determinou que solicitasse a prisão do ex-marido e do irmão.
A mulher disse que tinha medo de contrariá-lo, pois já havia sido agredida fisicamente por ele no dia 2 de setembro e em outras ocasiões. Por isso, teria obedecido às ordens e apresentado à polícia uma versão que sabia não corresponder à realidade.
Ela também declarou que as demais ocorrências registradas contra seus familiares não aconteceram e que agiu sob pressão e medo.
Criança estava no carro com o suspeito
Enquanto conversava reservadamente com a autoridade policial, a mulher demonstrou preocupação porque o companheiro estaria esperando nas proximidades da Casa da Mulher Brasileira. A filha dela, de 8 anos, permanecia dentro do veículo com ele.
A equipe policial iniciou diligências e localizou o homem estacionado a aproximadamente duas quadras da delegacia. A criança, que não possui vínculo de filiação com ele, foi encontrada no veículo e entregue à mãe.
Durante a abordagem, os policiais encontraram R$ 2.885 em dinheiro com o homem. A mulher afirmou que o valor pertencia a ela e estava sob o controle do companheiro, responsável por realizar saques e movimentações em sua conta bancária.
Ela também informou que ele costumava apagar as conversas mantidas entre os dois, especialmente quando a levava para registrar ocorrências policiais.
O documento encaminhado à reportagem não informa se o homem foi preso após a abordagem nem quais medidas foram adotadas posteriormente. O caso deverá ser investigado pela Polícia Civil.






