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Livro apresenta contrastes do Rio ao examinar linha de ônibus 474

Livro apresenta contrastes do Rio ao examinar linha de ônibus 474

A Onça by A Onça
13:41 segunda-feira, 12 janeiro 2026
in Brasil
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Na capital fluminense, uma linha de ônibus que costura a “cidade partida” expõe as fraturas no tecido social que afastam e conflagram os seus habitantes. É a 474 Jacaré/Copacabana, por vezes chamada de “linha do terror”, mas vital para o funcionamento da metrópole e para a vida de muitos de seus moradores, ao ligar territórios pobres, onde vivem trabalhadores domésticos, do comércio e serviços, às áreas mais nobres do Rio de Janeiro, onde encontram emprego, lazer e alívio para o calor com um banho de mar.

As distâncias físicas e simbólicas percorridas pelo ônibus 474 entre a zona Norte e a zona Sul do Rio de Janeiro são medidas e descritas pelo arquiteto e urbanista Gabriel Weber no recente livro 474: Jacaré/Copacabana, da Subinfluencia Edições (127 páginas, em versão de bolso).

Notícias relacionadas:Comlurb recolhe 1,2 toneladas de lixo das praias do Rio no réveillon.Passagem dos ônibus urbanos do Rio vai subir para R$ 5 no domingo.Livro resgata Teatro Experimental do Negro .Em coletivos com capacidade de até 70 passageiros em pé ou sentados, a linha 474 percorre durante 80 minutos (média de cada itinerário) os cerca de 22 km por sete dias da semana, durante 24 horas por dia, passando por 50 paradas – desde o Largo do Jacaré até o shopping Cassino Atlântico no Posto 6 de Copacabana, próximo ao Arpoador e Ipanema.

O propósito da viagem muda de acordo o passageiro e, especialmente, conforme o dia da semana. De segunda à sexta, o ônibus 474 leva os trabalhadores de bairros que outrora formavam parte industrial da Zona Norte, hoje “massa falida” no dizer de Gabriel Weber, para prestarem serviços nas áreas centrais e da Zona Sul.

 

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Livro Ônibus 474:Jacaré/Copacabana traz até mapas do trajeto do coletivo, por Sobinfluencia edições/Divulgação

“Durante a semana, tudo ocorre como o esperado, porque tem a rotina do trabalho. Mas, no final de semana, quando a linha é usada para o ócio dos moradores daqueles bairros, que são massa falida, a linha se torna perigosa. Vira manchete justamente pelo lastro de arruaça que ele deixa pela cidade”, explica o autor em entrevista à Agência Brasil.

“Suco de Rio de Janeiro”

A publicação não estigmatiza os viajantes nem romantiza seus anfitriões na zona Sul. Assim, revela um Rio diferente daquele esboçado no noticiário e na ficção das novelas de TV. “É um suco de Rio de Janeiro”, como gostam de dizer os cariocas quando contam uma história da sua cidade.

O livro tem a pretensão de “apresentar a cidade pelo posicionamento daqueles que não têm direito a ela, reconhecendo os lugares sociorraciais explícitos”, anuncia Gabriel Weber nas primeiras páginas.

O caminho do ônibus 474 é feito dos contrastes entre penúria e opulência, ordem e desordem, lazer e violência ─ disparidades comuns a outras cidades brasileiras, mas que, no Rio, têm peculiaridades.

O livro trata dos arrombamentos e calotes na entrada do ônibus, da depredação do veículo, do constrangimento aos motoristas, do surf rodoviário no teto da condução, de assaltos dentro do ônibus, de arrastões nas paradas dos bairros ricos, da discriminação racial nas revistas policiais, das operações especiais montadas pelas forças de segurança, e da recepção indesejada e até violenta por moradores da zona Sul, que chegam a combinar brigas pelo Whatsapp para bater em quem chegar do Jacaré.

 

Praia cheia com palcos montados na areia da Praia de Copacabana no último dia do ano. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Motoristas e passageiros

O texto também traz cenas de camaradagem entre despachantes, motoristas e usuários do transporte coletivo, faz flagrantes de solidariedade entre os passageiros, revela um suposto código de ética próprio da linha de não roubar quem é pobre, trata do cansaço dos trabalhadores voltando para casa, do cuidado das mães com seus filhos no ônibus, e mostra imagens de felicidade dos pais levando suas crianças em dia de descanso para a praia.

Para compor esses quadros sobrepostos, o carioca Gabriel Weber, que era usuário da linha, fez diversas viagens do 474, entrevistou motoristas, despachantes e passageiros, anotou cenas que assistia no ônibus e teve acesso a grupos de moradores de Copacabana no WhatsApp.

O livro de Gabriel Weber é resultado de sua pesquisa de mestrado na Universidade do Porto (Portugal), onde atualmente faz doutorado em programa conjunto com a Southern Methodist University (Texas, EUA). Com o mestrado, o autor venceu o prêmio português Viana de Lima, criado para laurear produções acadêmicas na área de Arquitetura e de Belas Artes.

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Tags: Agencia BrasilBrasilNotícias

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