História de mãe de três filhos em Corumbá mostra como renda, escola, saúde e assistência social se cruzam na proteção das crianças. O desafio é garantir que essa rede funcione também fora dos grandes centros e transforme planejamento em resultados concretos para as famílias.
Aos 29 anos e mãe de três filhos, Dayanna Pereira Ortiz conhece de perto o impacto das políticas públicas na vida de uma família em situação de vulnerabilidade. Moradora de Corumbá, ela acompanha os dois filhos mais velhos, de 11 e nove anos, na rotina da Escola Municipal Fernandinho. O caçula, de quatro anos, permanece sob seus cuidados, o que atualmente a impede de voltar ao mercado de trabalho.
Entre o desejo de trabalhar e a necessidade de garantir o básico aos filhos, o programa Mais Social tornou-se um dos principais apoios da família.
“O Mais Social é um benefício muito bom porque o cartão é destinado à compra de alimentos. A gente sabe que aquilo vai virar comida dentro de casa. Não é dinheiro para gastar com outras coisas, é alimento para a nossa família e isso trouxe mais dignidade para quem precisa”, conta.
A realidade de Dayanna ajuda a traduzir uma das ideias defendidas pelo governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição: uma criança em situação de vulnerabilidade raramente precisa de apenas um serviço público. Alimentação, escola, saúde, renda e proteção fazem parte da mesma realidade e, por isso, precisam funcionar de maneira articulada.
Em Mato Grosso do Sul, essa compreensão orienta uma rede que busca aproximar saúde, educação, assistência social, segurança pública, órgãos de controle e municípios. A proposta é fazer com que escolas, unidades de saúde, serviços assistenciais e órgãos de proteção deixem de atuar como portas isoladas e passem a compartilhar responsabilidades.
Na casa de Dayanna, essa integração aparece de forma concreta. Enquanto o Mais Social ajuda a garantir alimento na mesa, a escola pública recebe diariamente os dois filhos mais velhos. Juntos, esses serviços formam uma base de apoio para que a família atravesse o período em que ela ainda não consegue ter renda própria.
“Hoje eu não estou trabalhando porque não tenho condições de pagar alguém para cuidar do meu filho pequeno. Eu gostaria muito de trabalhar, mas, por enquanto, dependo do benefício”, explica.
Uma criança, diferentes necessidades
A integração entre os serviços parte da compreensão de que situações aparentemente simples podem esconder problemas mais graves. Uma criança que falta repetidamente à escola pode estar doente, cuidando dos irmãos, vivendo em uma casa sem condições adequadas ou sendo vítima de violência.
Da mesma forma, uma vacina atrasada pode indicar dificuldade de transporte, falta de informação ou a impossibilidade de os responsáveis deixarem o trabalho durante o horário de funcionamento da unidade de saúde.
Para Riedel, o desafio é fazer o poder público enxergar a criança por inteiro, acompanhando suas necessidades desde os primeiros momentos de vida.
“O cuidado integral começa na gestação. A localização precoce da gestante, o pré-natal, o acompanhamento de riscos e a definição da maternidade de referência ajudam a proteger mãe e bebê. Depois do nascimento, o atendimento continua com vacinação, testes neonatais, acompanhamento do desenvolvimento e apoio à amamentação”, afirma.
A primeira infância, período que compreende os seis primeiros anos de vida, é considerada decisiva para o desenvolvimento humano. Segundo a psicóloga e coordenadora do Comitê da Primeira Infância da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul (SED-MS), Ana Carina do Prado Ávila Verbisck, essa fase exige uma atuação conjunta entre diferentes áreas.
“Os primeiros seis anos de vida são um período decisivo para o desenvolvimento infantil, pois é nessa fase que se constroem as bases do desenvolvimento cognitivo, emocional, social e físico”, explica.
Para a psicóloga, saúde, educação, assistência social e família precisam trabalhar de maneira conectada. Essa articulação permite identificar sinais de vulnerabilidade com antecedência, antes que as dificuldades se transformem em problemas ainda mais graves.
Quando a vacinação chega à escola
Uma das iniciativas que colocam essa integração em prática é o programa Aluno Imunizado. A ação leva equipes de saúde às escolas para verificar as cadernetas de vacinação, identificar doses atrasadas e aproximar os serviços de saúde de crianças, adolescentes e suas famílias.
Desenvolvida pelas secretarias estaduais de Saúde e Educação em parceria com os municípios, a estratégia é realizada duas vezes por ano.
Mais do que uma campanha de vacinação, a iniciativa ajuda a eliminar barreiras enfrentadas por famílias que trabalham durante todo o dia, moram longe das salas de vacina ou têm dificuldades de transporte.
Nesse modelo, a escola também amplia seu papel. Além do ensino, professores, coordenadores e diretores podem identificar faltas frequentes, mudanças de comportamento e sinais de fome, doença, negligência ou violência.
“Uma carteira vazia por vários dias pode ser o primeiro alerta de que algo acontece dentro de casa. É nesse momento que educação, saúde, assistência e conselho tutelar precisam agir de forma coordenada”, afirma Riedel.
Planos precisam sair do papel
A construção de uma rede integrada depende diretamente dos municípios, responsáveis por grande parte dos serviços que chegam à população.
Em maio de 2025, 71 dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul já haviam aprovado ou colocado em prática seus Planos Municipais pela Primeira Infância. Os documentos devem orientar as políticas destinadas às crianças de zero a seis anos em áreas como saúde, educação infantil, assistência social, alimentação, saneamento, convivência familiar e proteção contra a violência.
A aprovação dos planos, no entanto, é apenas uma etapa. O desafio está em transformar o que foi planejado em orçamento, metas e atendimento efetivo.
O Tribunal de Contas do Estado alertou para a necessidade de incluir as ações destinadas à primeira infância nos planos plurianuais e em outros instrumentos orçamentários dos municípios. Sem essa previsão, medidas importantes podem permanecer apenas no papel ou depender da iniciativa isolada de uma secretaria ou de determinado gestor.
A estratégia estadual busca avançar justamente nesse ponto, estabelecendo diretrizes comuns e fortalecendo a capacidade dos municípios e dos diferentes serviços de trabalharem de forma articulada.
Proteção contra a violência exige resposta conjunta
A integração torna-se ainda mais necessária diante de uma suspeita ou confirmação de violência.
Todos os anos, centenas de crianças de zero a 11 anos são registradas como vítimas de algum tipo de violência em Mato Grosso do Sul. Conforme dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública, grande parte desses crimes ocorre dentro das próprias residências.
Os registros oficiais, porém, representam apenas os casos que chegaram ao conhecimento das autoridades. A violência contra crianças é marcada pela subnotificação, principalmente quando o agressor pertence à família ou quando a vítima ainda é pequena demais para compreender ou relatar o que aconteceu.
Quando os serviços atuam de forma desarticulada, o próprio atendimento pode ampliar o sofrimento. Uma criança pode passar por unidade de saúde, delegacia, conselho tutelar, perícia e acompanhamento psicossocial, sendo obrigada a repetir várias vezes o relato da violência sofrida.
Para reduzir a revitimização, o Governo do Estado avançou na estruturação de um Centro de Atendimento à Criança em Campo Grande. A proposta é reunir diferentes serviços e estabelecer um fluxo integrado de proteção, investigação, saúde e acompanhamento psicossocial.
O Estado também instituiu o programa MS Acolhe e Protege, voltado ao enfrentamento da violência doméstica contra mulheres, crianças e adolescentes, especialmente em Campo Grande e Dourados. A iniciativa autorizou a realização de 1.250 plantões adicionais na Polícia Civil.
Uma família não cabe em uma única secretaria
O princípio da rede integrada é simples, embora colocá-lo em prática seja uma tarefa complexa: os problemas enfrentados por uma família não seguem a divisão administrativa do poder público.
A falta de saneamento pode causar doenças. A doença pode afastar uma criança da escola. As ausências podem chamar a atenção dos professores. Ao procurar a família, o serviço público pode descobrir que a mãe não consegue levar o filho à unidade de saúde porque trabalha durante todo o dia. Uma visita domiciliar pode ainda revelar insegurança alimentar, atraso na vacinação ou sinais de violência.
Nenhuma dessas situações pode ser resolvida por apenas uma secretaria.
“Uma família não pode ser enviada de porta em porta sem saber onde encontrará resposta”, resume Riedel.
Nesse modelo, o Governo do Estado não substitui os municípios, as escolas, as unidades de saúde ou os conselhos tutelares. O papel estadual é estabelecer diretrizes, apoiar as equipes e criar mecanismos que aproximem serviços que, historicamente, nem sempre atuaram de maneira conectada.
Avanços e desafios
Mato Grosso do Sul avançou na elaboração dos planos municipais para a primeira infância, na vacinação dentro das escolas e na estruturação de serviços integrados de proteção. Transformar essas iniciativas em uma rede plenamente conectada, porém, continua sendo um trabalho de longo prazo.
Entre os principais desafios estão fazer com que os planos municipais sejam efetivamente executados, ampliar a troca segura de informações, capacitar profissionais e garantir atendimento também fora dos grandes centros, especialmente em áreas rurais, aldeias, assentamentos e regiões de fronteira.
Também será necessário medir os resultados pelo impacto na vida das crianças, e não apenas pelo funcionamento da estrutura administrativa. Mais importante do que contabilizar reuniões realizadas ou planos aprovados será saber quantas crianças foram localizadas, vacinadas, reconduzidas à escola, protegidas da violência ou encaminhadas para atendimento de saúde e assistência social.
É nesse ponto que, para famílias como a de Dayanna, uma política pública deixa de ser um programa registrado em documentos e passa a fazer parte da vida cotidiana.
Ela ainda espera a oportunidade de voltar ao mercado de trabalho. Enquanto isso, divide os dias entre os cuidados com o filho mais novo, a rotina escolar dos dois mais velhos e o benefício que ajuda a garantir comida dentro de casa.
“Não é só eu que preciso. Tem muitas famílias que dependem desse apoio para conseguir alimentar os filhos e seguir em frente”, afirma.
A efetividade da rede integrada será medida justamente na distância entre o planejamento do poder público e a realidade da mesa, da escola, do posto de saúde e da segurança de cada criança. Mais do que oferecer diferentes serviços, o desafio é fazer com que todos eles encontrem a mesma família antes que uma dificuldade se transforme em emergência.




