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Jornada de Carolina Maria de Jesus será contada pela Unidos da Tijuca

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A Onça by A Onça
6:02 segunda-feira, 9 fevereiro 2026
in Brasil
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A menina Bitita é quem vai abrir o desfile da Unidos da Tijuca em 2026, para contar, desde o começo, a vida da escritora, cantora, compositora e poeta brasileira Carolina Maria de Jesus. Na língua changana ou xichangana, de Moçambique, Bitita significa panela de barro de cor ocre ou preta, representando resistência e ancestralidade.

A escritora recebeu esse apelido do avô Benedito, no início do século passado, e essa será apenas uma de “outras diversas Carolinas” que vão passar pela Sapucaí para contar a trajetória da autora consagrada, como “a doméstica”, “a grávida”, “a louca do Canindé”, “a catadora”, “a escritora”, “a marionete” e “a do carnaval”.

Notícias relacionadas:Campanha busca valorizar cultura negra e combater racismo no carnaval.Ministério quer proteger crianças e adolecentes no carnaval.Carnaval deverá injetar mais de R$ 5,7 bi na economia carioca.“É um enredo bem biográfico. A história se desenvolve cronologicamente”, pontuou o carnavalesco Edson Pereira em entrevista à Agência Brasil. “O que a Tijuca faz é colocar a Carolina no palco”.

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Apesar da grandeza que tem, argumenta o carnavalesco, sua história é pouco divulgada e, por isso, precisa ser contada.

“A gente vive em um momento, não só do país, mas da cultura do nosso país, em que a gente precisa acender a luz daqueles que foram apagados pela nossa história. A Carolina representa muito bem a força da mulher”, afirmou.

 

Edson Pereira, carnavalesco da Unidos da Tijuca, fala sobre o enredo do desfile de 2026 da escola que vai homenagear a escritora Carolina Maria de Jesus. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil 

Apagamento e força

Foi o avô alforriado e contador de histórias que influenciou Carolina a criar as suas histórias, assim como com as mulheres da família.

“Ela aprendeu os segredos que só o tempo revela no encanto do falar e do ouvir; e, nas barras das saias de sua mãe, tias e madrinhas, se entrelaçou ao poder das coisas ditas, ao espírito desconhecido das letras e palavras, aquelas às quais ela desejava conhecer”, traz a sinopse da Tijuca, texto no qual as escolas explicam o enredo que vão apresentar nos desfiles.

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, em uma comunidade rural da cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Os sonhos de deixar o interior a levaram para São Paulo. A mudança não resultou no que esperava e foi o começo de muitas adversidades. Sob muito preconceito, lutou até se tornar escritora. 

“A história da Carolina enquanto escritora que foi apagada é algo que nos fascina não pelo apagamento, mas pelo empoderamento dela. A Carolina enquanto mulher, enquanto preta, enquanto resistência”, comentou o carnavalesco, lamentando que atualmente os problemas são os mesmos. “É triste falar sobre isso, mas é uma realidade”.

Em São Paulo, ela foi morar na favela do Canindé. Foi lá que começou a relatar todos os preconceitos e histórias de feminicídios e viu que o desenvolvimento social não chegava aos pretos.

“Ela começa a se entender no lugar de opressão”, indicou Edson Pereira, acrescentando que Carolina sonhava também em ter comida no prato para alimentar os filhos. “É um carnaval de reconhecimento, de botar o dedo nas feridas”, relatou.

Edson adiantou que a terceira alegoria da Azul e Amarela da Tijuca é dedicada ao livro Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, que se transformou em sucesso ao vender 10 mil exemplares na semana de lançamento, em 1960.

A obra, escrita a partir de anotações que fazia em diários contando histórias de vizinhos, foi também traduzida para ao menos 14 idiomas e lançada em mais de quarenta países.

“É todo feito de papelão, de material alternativo”, descreveu o carnavalesco sobre a composição da alegoria, em uma referência ao tempo que a escritora era catadora e construiu sua casa com o dinheiro que ganhou vendendo papelão entre outros materiais.

 

Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escritoras negras do Brasil, é considerada uma das mais importantes do país Foto: CCSP

Saúde mental

Botar toda esta história de pé para contar da forma como o carnavalesco idealizou não é uma tarefa fácil, e vem sendo realizada pela dupla de diretores de carnaval da Tijuca, Fernando Costa e Elisa Fernandes.

Embora seja o seu primeiro ano nesta função, Elisa não é uma desconhecida na Tijuca, onde já foi assessora de imprensa. A experiência no carnaval, no entanto, vai além dessas passagens. Até 2025, esteve por 10 anos na direção de alegorias da Portela.

Elisa disse que a nova missão é de muita responsabilidade, por ter que gerenciar o projeto, o barracão e a feitura de fantasias e alegorias. Apesar de já ter tido essa experiência na União de Jacarepaguá, ela agora tem a oportunidade de realizar o trabalho no Grupo Especial.

“A coisa cresce muito. O Grupo Especial é muito forte. É o maior espetáculo da Terra, mas, para mim, está sendo um grande prazer”, comentou.

Como método para melhorar as condições de trabalho dos profissionais que preparam o carnaval, Elisa trouxe uma novidade para os bastidores da Tijuca.

“Eu introduzi uma equipe de psicólogos. Hoje, os artistas da escola têm esse cuidado, porque eu acredito que alguns segmentos têm uma pressão muito grande”, contou,

Entre os que utilizam o serviço estão passistas, casal de mestre sala e porta-bandeira, responsáveis pelos ateliês e o setor administrativo da escola. De acordo com a diretora, é necessário ter esse momento de autocuidado, de parar tudo e prestar atenção em si mesmo, diante do trabalho para fazer tudo funcionar na avenida.

“Estou tentando convencer o presidente a fazer também. Ele ainda não fez, mas disse que vai fazer”, indicou.

Força da mulher

Elisa se orgulha de poder, no primeiro ano na função, ter pela frente um enredo em homenagem a Carolina Maria de Jesus. “Eu, como uma mulher negra, no primeiro ano na direção de carnaval, pegar um enredo desse é um presente até difícil de explicar. Estou me matando para fazer jus a essa possibilidade que me foi dada”.

“Carolina é muito importante. Ela inspira outras mulheres a serem o que elas quiserem, porque Carolina não era só escritora. Ela também era cantora e compositora, eu também sou cantora e compositora”, contou.

A escolha do enredo teve a sua participação, lembrou ela. Elisa chegou a defender o enredo diante do presidente da escola. “Fui incisiva. Eu falei ‘olha esse é o melhor que nós temos. Acredito que esse é um enredo que vai fazer a diferença, porque Carolina é muito grande”.

Para a diretora de carnaval, a escritora representa a força de todas as mulheres e também sua versatilidade.

“Acredito nessa coisa de multitarefa da mulher. A sociedade exige de nós essa polivalência. Somos seres polivalentes por nós mesmas. Nós somos sementes da Carolina. A gente só está continuando o trabalho dela e tendo a oportunidade de homenagear uma mulher que já deveria ter sido homenageada há muito tempo”.

Conheça os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro

1º dia – domingo (15/2)

Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil;
Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico;
Portela – O Mistério do Príncipe do Bará;
Estação Primeira de Mangueira – Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra

2º dia – segunda-feira (16/2)

Mocidade Independente de Padre Miguel – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;
Beija‑Flor de Nilópolis – Bembé do Mercado;
Unidos do Viradouro – Pra Cima, Ciça;
Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus.

3º dia – terça-feira (17/2)

Paraíso do Tuiuti  – Lonã Ifá Lukumi;
Unidos de Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;
Acadêmicos do Grande Rio – A Nação do Mangue;
Acadêmicos do Salgueiro – A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.

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