Manifestação ocorreu após denúncias envolvendo terreiro da cidade e reuniu lideranças que defendem liberdade de culto e respeito às religiões de matriz africana
Representantes de religiões de matriz africana, lideranças religiosas e apoiadores realizaram, na tarde deste sábado (1º), uma caminhada pelas ruas de Dourados em defesa da liberdade religiosa e contra o racismo religioso. O ato, organizado por comunidades tradicionais de terreiro, teve como principal objetivo chamar a atenção para o direito constitucional de exercer a fé sem perseguições ou discriminação.
A mobilização ganhou ainda mais força após a repercussão envolvendo a Casa de Caridade Tenda de Oxóssi – Inzo Aueto Kabila Daonã. Em julho, o Ministério Público Estadual instaurou um inquérito civil para apurar denúncias relacionadas à ausência de alvará de funcionamento e suposta poluição sonora provocada pelas atividades do terreiro, após reclamações apresentadas por um morador vizinho.
Na época, a dirigente espiritual da casa, Nadja Flavia Winkler, conhecida como Mametu Ofá, afirmou que o terreiro vem colaborando com os órgãos públicos, realizando as adequações necessárias para obtenção do alvará definitivo. Em nota, ela também demonstrou preocupação com o que considera uma sucessão de fatos que tem criado um ambiente de insegurança para a comunidade religiosa, defendendo que a situação seja analisada com equilíbrio e respeito à liberdade de crença.
Durante a caminhada, os participantes sustentaram que episódios de perseguição a terreiros, intimidação de lideranças e impedimentos para a realização de rituais não podem ser tratados apenas como conflitos entre vizinhos ou divergências religiosas. Segundo o manifesto divulgado pelos organizadores, essas situações representam violações de direitos fundamentais e refletem o racismo religioso ainda enfrentado pelos povos de terreiro.
O texto afirma que a caminhada simbolizou “um ato de resistência” diante de uma realidade que, segundo os participantes, insiste em invisibilizar as tradições de matriz africana. Também destaca que o racismo religioso é consequência de um processo histórico de discriminação que busca apagar saberes, memórias e espiritualidades ancestrais.
Os manifestantes prestaram solidariedade à Tenda de Oxóssi, à Mametu Ofá e a todas as comunidades religiosas que afirmam sofrer perseguições em razão da fé. Para o grupo, quando um terreiro é atacado, toda uma história, identidade cultural e patrimônio imaterial são colocados em risco.
“O direito de existir, cultuar nossos ancestrais e viver nossa fé sem medo não é privilégio. É um direito constitucional”, diz um dos trechos do manifesto divulgado após o ato.
Os organizadores também defenderam que a luta dos povos de terreiro vai além da preservação da espiritualidade. Segundo o documento, ela envolve a defesa da dignidade humana, da cultura afro-brasileira e dos direitos das comunidades tradicionais.
A manifestação foi encerrada com um compromisso de continuidade da mobilização. “Enquanto houver racismo religioso, nossa luta continuará. Liberdade religiosa não é concessão, é um direito, e direitos se defendem coletivamente”, conclui o manifesto.




